Módulo 5 | Ensino-Aprendizagem da Leitura e Interpretação de Textos

Aula 4 | Funcionamento da Língua ou Gramática

Funcionamento da língua ou gramática

A língua é um instrumento de comunicação que obedece a regras de funcionamento. Têm sido utilizadas várias estratégias para o ensino do funcionamento da língua e para a compreensão de vários aspectos da gramática. O objectivo deste ensino é habilitar os alunos a servirem-se da linguagem, quer falada quer escrita, para exprimirem melhor o que pensam e o que sentem. Significa isso que se deve fornecer ferramentas essenciais ao aluno para que ele domine o funcionamento pleno da língua.

Mas antes de nos alongarmos sobre o funcionamento da língua, vamos reflectir sobre as seguintes questões:


Actividade 9
Técnica didáctica Interacção aos pares - Reflexão.
Conteúdo A gramática no âmbito de ensino de línguas.
Habilidades a desenvolver no(a) formando(a):
  • Prevê, de uma forma reflexiva, as melhores formas de ensinar a gramática;
  • Relaciona suas vivências na aprendizagem da língua e as práticas de ensino da gramática.

A gramática no ensino de línguas

A resposta clara e directa à pergunta: “Será que a gramática é realmente indispensável no ensino de uma língua?” seria “não”. Muitas pessoas no mundo falam as suas línguas maternas sem ter estudado a sua gramática. Além disso, as crianças começam a falar muito antes de saber se o que falam é gramatical ou não. Pelo que, com estas teses, pode dizer-se que a gramática não parece ser indispensável quando se aprende uma língua. Assim, o ensino da gramática e a aquisição e aprendizagem da língua materna podem ser totalmente desconectadas uma da outra, uma vez que imersão linguística leva à aquisição implícita da gramática. Todavia, há uma necessidade de se trabalhar o funcionamento da língua no contexto escolar, o que pode ser feito de duas formas, nomeadamente, o ensino implícito e explícito da gramática.


Afinal, como ensinar a gramática de forma implícita ou explícita?

Para melhor enquadramento das sugestões metodológicas que se apresentam nesta aula, considere-se os três trechos e as respectivas actividades propostas a seguir.

Trecho 1:

Numa aula sobre funcionamento de língua, uma professora de Cicopi, ao ensinar a flexão em número, chamou para frente uma menina. A seguir pediu aos restantes alunos da turma para apontarem a menina dizendo: icihoranana? /“ Éuma menina”. A seguir, chamou a segunda menina. E perguntou: Aku iku simbidi, hikho cani?/ “Dado que são duas, como é que diremos?” Resposta: isihoranana./ “São meninas”.

Nota: Neste exercício, o professor pode chamar mais meninos, usar objectos de dentro ou fora da sala, com o intuito de trazer a ideia do singular e do plural.

Trecho 2:

A mesma professora de Cicopi, para ensinar os tempos verbais, tomou como ponto de partida a seguinte frase: Nidyite mipawu./ “Comí mandioca.”

A seguir pergunta: I cani ningadya? “O que comi?” Respondem: Udyite mipawu./ “Comeste mandioca.” Pergunta: Ditshiku muni ningadya mipawu? “Em que dia comí mandioca”? Resposta: Nyanova. /“Ontem”. E depois perguntou: Idi mangwana, minakhanu cani?/ “Se for amanhã, como diriam?” Respondem: Mangwana unadya mipawu. /”Amanhã comerás mandioca”. Idi konku? /“E se for agora?” Awe udya mipawu./ “Tu comes mandioca”.

Trecho 3:

Um professor de Ciwute pretende ensinar a lateralização. Ele faz perguntas do tipo:


Actividade 10
Técnica didáctica Interacção em grupos.
Conteúdo Exercício prático sobre a gramática.
Habilidades a desenvolver no(a) formando(a):
  • Responde às perguntas do exercício com base nas suas experiências de aprendizagem da língua e dos trechos apresentados sobre o assunto;
  • Elabora actividades específicas sobre o ensino implícito e explícito da gramática;
  • Reflecte sobre o ensino da gramática nas línguas moçambicanas.

Formem grupos de 4 a 5 formandos de ambos os sexos e respondam às seguintes perguntas:


Depois de ter reflectido sobre o ensino da gramática, no ponto que se segue você vai apreciar algumas imagens de dicionários e gramáticas de línguas moçambicanas e, de seguida, vai ler apontamentos sobre o ensino implícito e explícito da gramática.

O ensino da gramática, mesmo não sendo indispensável, é relevante para a aquisição de uma determinada língua, daí que haja necessidade de adoptar estratégias que promovam o desenvolvimento de competências gramaticais nos alunos. Para o efeito, o professor deve redobrar esforços para aplicar variadas estratégias que possam ajudar os alunos a dominar as regras gramaticais da língua que é alvo de aprendizagem. Para o caso específico das línguas moçambicanas, ainda há poucas gramáticas. As de referência são o Dicionário Changana - Português (Sitoe, 2011) com uma parte sobre a gramática da língua; a Gramática Descritiva da Língua Changana (Ngunga e Simbine, 2012); Elementos da Gramática da Língua Yao (Ngunga, 2002).

No ensino de línguas, existe um vasto conjunto de opções metodológicas que defendem a forma como se deve ensinar a gramática. No âmbito do ensino implícito da gramática, existe o chamado “ensino orientado para o significado”, que consiste numa aprendizagem natural da língua, em que o aluno aprende sem que o professor explicite as regras de funcionamento da língua-alvo. No âmbito do ensino explícito da gramática, encontramos o denominado ”ensino orientado para a forma”, no qual o professor privilegia, de forma mais consistente, a apresentação de estruturas e regras linguísticas que o aluno deve dominar e aplicar.

Ainda que estes princípios metodológicos concorram para o desenvolvimento da competência linguística gramatical, eles têm suas vantagens e desvantagens. O ensino “orientado para o significado”, por exemplo, considera-se vantajoso pelo facto de se criarem condições para o aluno aprender o funcionamento da língua num ambiente sociocultural sem que se sinta vigiado pelo professor. A desvantagem desta abordagem é que muito do que os alunos ouvem é dito por outros alunos que ainda estão em fase de desenvolvimento da língua, o que significa que os aprendentes podem estar expostos a muitos erros de língua.

O “ensino orientado para a forma” é considerado vantajoso pelo facto de o aluno receber, com frequência, modelos correctos fornecidos pelo professor ou pelos materiais de ensino e praticá-los sob orientação do professor. A desvantagem é que, na tentativa de usar os modelos fornecidos pelo professor ou através de materiais de ensino, os alunos podem cometer erros de sobregeneralização, isto é, aplicarem uma certa regra da língua em um contexto inapropriado.


Exercício para ensino implícito ou explícito da gramática

Para um maior domínio da gramática de uma língua, é necessário que os alunos pratiquem exercícios escritos e orais visto que é pela “prática da língua”, e não através da sua análise, que se aprende uma língua. Embora haja algumas aproximações no ensino de gramática de qualquer língua, para o caso das línguas moçambicanas, línguas tipicamente aglutinantes, requer práticas constantes como forma de aprimorar como funcionam as estruturas gramaticais.

Para o ensino implícito da gramática, os alunos podem ser mergulhados em exercícios estruturais, onde aprenderão a gramática de forma implícita. Estes exercícios estão subdivididos em cinco tipos, nomeadamente, preenchimento de lacunas, escolha múltipla, transformação de frases, expansão e repetição. Para uma breve demonstração, apresentamos, a seguir, como dois destes funcionam, o de preenchimento de lacunas e a transformação de frases.


a) Preenchimento de lacunas - neste tipo de exercício, apresenta-se frases com espaços em branco e são fornecidas estruturas linguísticas que o aluno deve usar para preencher esses espaços.

Exemplo em Elomwe:

Okwanihe malaka ni masu ala: Osilo, olelo ni Omeelo. /“Preencha os espaços em branco com as formas ontem, hoje e amanhã”.

________________ koolya caakwa. / “________________ comi mandioca.”
________________ kinaalya caakwa. / ”________________ comerei mandioca.”
________________ kinlya caakwa. / ”________________ como mandioca.”

b) Transformação de frases – consiste na apresentação de frases que têm estruturas que devem ser modificadas de acordo com certas regras. Por exemplo, as regras de concordância verbal em Ciwute:

Mutongi wa dziko afika rero. Iye yafika na nkazi wayo. Imwe timbafuna kubwera kwayo. Iye tabwera kulonga nandawa ya dziku. Kulonga nandawa ya dziku zvakanaka!

Nyoresa mundanda: /“Rescreve correctamente a frase”

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“O Presidente da República chegou hoje. Ele chegou com a sua esposa. Vocês gostam da vinda dele. Ele vem falar dos assuntos do país. Falar dos assuntos do país é importante”.

Nota: O texto em Português não apresenta problema de concordância, o que já não acontece em Ciwute. O formador deve inspirar-se no texto para trabalhar a concordância nas restantes línguas moçambicanas.


Tendo em conta o funcionamento das línguas moçambicanas, a tipologia de exercícios proposta acima pode ser recriada, adaptada e adequada à natureza das estruturas gramaticais destas línguas e ao conteúdo que se pretende ensinar. Por exemplo, para ensinar implicitamente as classes nominais, concordância com o verbo ou os possessivos, o professor pode proceder da seguinte forma:

A seguir à leitura e interpretação da imagem, aproveitando a etapa do “nomear”, o professor pode pedir que os alunos agrupem o que vêem na imagem em espécie (pessoas/seres humanos, animais, objectos). A partir desse agrupamento, tendo em conta o assunto da aula, pode pedir, por exemplo, para que os alunos olhem para a semelhança das iniciais de alguns dos nomes das figuras presentes na ilustração. Através dessas iniciais, tendo em conta o conceito de classe nominal (cf. Manual de Línguas Moçambicanas, Capítulo III) ou por meio da aplicação do princípio de concordância do sujeito com o verbo, chega-se ao entendimento do que é classe nominal. Este princípio pode-se aplicar para a temática dos possessivos, o que levará os alunos a entenderem que os possessivos variam tendo em conta as classes nominais.

No ensino explícito da gramática, faz-se o tratamento de definições, exploração de significados e o fornecimento de regras gramaticais prontas a serem aplicadas.

Exemplo:

No ensino de singular e plural das palavras cihoranana e sihoranana, em Cicopi, tal como mostra a imagem, a professora explica que a flexão em número é feita pelo prefixo. O ci- é o prefixo que indica o singular e o si- indica o plural.

Sobre os tempos verbais, a professora indica que as marcas do tempo são assinaladas por partículas denominadas morfemas, que se aglutinam ao verbo. Em Cicopi, por exemplo, as marcas dos tempos verbais são -ite, no passado (nidyite); , no presente, (nadya/nidya) e –na-, no futuro, (ninadya).

Estes princípios são aplicáveis a qualquer língua moçambicana. Entretanto, há que se tomar em consideração as especificidades de cada língua. Por exemplo, não são todas as línguas que agrupam os nomes tendo em conta a sua semântica.


Actividade 11
Técnica didáctica Interacção em grupos – grupos de peritos.
Conteúdo Exercício prático sobre a gramática.
Habilidades a desenvolver no(a) formando(a):
  • Aprofunda seus conhecimentos sobre o ensino implícito e explícito da gramática;
  • Planifica actividades apropriadas para o ensino implícito ou explícito da gramática em línguas moçambicanas;
  • Aprimora suas habilidades de argumentação e posicionamento em relação a um determinado assunto.

Nota: Esta actividade pode ser preparada fora da sala, aproveitando as horas de estudo independente, e culminar na sala de aulas com as simulações.

Como sabe, a avaliação é uma componente integrante do processo de ensino-aprendizagem, pois permite verificar o nível de aprendizagem dos alunos e prover estratégias para a superação de possíveis dificuldades. A seguir você vai aprender mais sobre os procedimentos didácticos para avaliar a leitura, a compreensão e a gramática das línguas moçambicanas.


Assista à Videoaula

Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual