Módulo 6 | Estratégias Didáctico-Pedagógicas para a Transferência de Habilidades de Línguas (L1-L2)

Aula 1 | Transferência de Habilidades de Línguas

TRANSFERÊNCIA DE HABILIDADES DE LÍNGUAS

A transferência de habilidades linguísticas é característica entre indivíduos que, no mínimo, entram em contactos com duas línguas. Ela é justificada pela tese segundo a qual a aquisição de novas aprendizagens assenta no conhecimento prévio que o indivíduo possui, significando isso que os novos saberes são a expansão do conhecimento já existente.

Sendo que, em condições normais, a primeira língua do indivíduo é a que tem mais possibilidades de se desenvolver melhor, o preceito do conhecimento prévio é aplicável para o contexto de ensino de línguas, pois se acredita que quanto mais desenvolvida for a língua primeira, mais proveitoso será o seu papel para a aprendizagem de outras línguas, por meio de transferência positiva de destrezas. Nesta perspectiva, no ensino bilingue de transição, a transferência de habilidades pode acontecer muito antes da transição. Assim, o aluno bilingue pode transferir aspectos linguísticos, notavelmente a consciência fonológica; os conceitos; os aspectos pragmáticos; os aspectos metacognitivos, como ordenamento de elementos, produção e leitura de gráficos, entre outros.

É na esteira destes princípios e no reconhecimento do multilinguismo que caracteriza o país que Moçambique optou por duas modalidades de ensino para o Nível Primário, nomeadamente: Bilingue e Monolingue.

A modalidade Bilingue ocorre numa língua moçambicana (ex. Xichangana, Cindau, Emakhuwa, etc.) e português, ao passo que a Monolingue acontece exclusivamente em Português.

Antes de aprofundar os aspectos teóricos sobre a didáctica de línguas em contacto, importa partir de uma actividade prática de revisão e aprofundamento de conhecimentos sobre o Ensino Primário em Moçambique. Assim, na actividade que se segue, você irá confrontar diferentes materiais que abordam aspectos ligados à transição e transferência de habilidades.


Actividade 1
Técnica didáctica Interacção em grupo.
Conteúdo Desafios na fase de transição do programa de educação bilingue - Projecto de investigação.
Habilidades a desenvolver no(a) formando(a):
  • Aprofunda a teoria e a prática através da socialização e domínio dos instrumentos reguladores do ensino-aprendizagem no contexto de educação bilingue;
  • Reflecte sobre os desafios emergentes no ensino de línguas em contextos multilingues.

Depois de realizar a actividade 1, leia os apontamentos fornecidos abaixo para aprofundar os seus conhecimentos sobre o ensino em duas línguas e transição do meio de ensino, prestando particular atenção na forma como ocorre a transição e nas estratégias de uso de duas línguas no contexto da sala de aulas.


O Ensino em duas línguas como meios de ensino e aprendizagem e a transição da L1 para a L2

Como se referiu no Módulo 1, o Ensino Bilingue é aquele em que num currículo escolar se usam duas línguas diferentes. Normalmente, uma das duas línguas é a materna da criança ou aquela em que o aluno tem mais domínio e a outra, geralmente, uma língua segunda.

Em Moçambique, o Ensino Bilingue consiste no uso da língua materna da criança (uma língua Bantu) e do Português (língua segunda para a maioria das crianças em idade escolar).

O modelo adoptado pelo Plano Curricular do Ensino Primário de 2003 é de transição de L1 (língua bantu), para L2, (língua portuguesa) e com a manutenção da L1, como disciplina. Assim, na 1ª, 2ª e 3ª classes, a língua de ensino predominante é uma língua bantu, língua primeira da criança. Na 1ª e 2ª classes, a língua portuguesa é usada como disciplina e como meio de ensino na disciplina de Ed. Física. Na 3ª classe, além de o Português ser usado como língua de ensino na disciplina de Educação Física, desenvolve-se a oralidade, a leitura e a escrita, como forma de preparação para a fase de transição (de uma língua moçambicana/ L1) para o Português/L2, até aqui reservada para a 4ª classe.

Contudo, na nova Estratégia de Expansão do Ensino Bilingue 2020-2029, prevê-se que a transição do Meio de Ensino seja de forma gradual, iniciando na 3ª classe e terminando na 6ª classe. Com esta modalidade de transição, espera-se que os alunos consolidem as habilidades nas duas línguas, contribuindo para a criação de condições para o desenvolvimento de um bilinguismo equilibrado (cf. Estratégia de Expansão de Ensino Bilingue 2020-2019, pp.22-25), permitindo assim uma transferência eficaz de habilidades. Assim, da 1ª a 5ª classes, a L1 da criança será predominantemente usada como meio de ensino, papel que a língua portuguesa vai assumir integralmente a partir da 6ª classe.

Esta mudança da língua de ensino é sustentada pelo princípio da interdependência entre as línguas, segundo o qual, no contexto de Ensino Bilingue, as habilidades linguísticas e de aprendizagem adquiridas e desenvolvidas numa das línguas (principalmente na L1) podem ser transferidas positivamente e usadas para a aprendizagem da outra.

Por exemplo, as crianças moçambicanas, ao receberem a primeira alfabetização nas suas L1 poderão facilmente transferir esses conhecimentos ao aprenderem a leitura e escrita na língua portuguesa. Mais ainda, quando o/a aluno/a aprende a contar na sua L1, depois da mudança do meio de ensino não vai aprender de novo os princípios gerais da contagem (por exemplo, que os números obedecem a uma ordem, a ordem pode ser crescente ou decrescente, etc.), mas sim, transferir esses conhecimentos para a contagem em Português. Ou seja, o que vai fazer é corresponder os nomes dos números na sua língua aos nomes em Português e aprender o sistema específico de contagem nesta língua.


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Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual