Módulo 2 | Sistema de Sons e Ortografia das Línguas Moçambicanas

Aula 3 | Representação Gráfica das Línguas Moçambicanas

Representação gráfica das línguas moçambicanas

Como já referimos, nas línguas moçambicanas adopta-se a escrita fonémica, em que um grafema é representado por um único som. As vogais, independentemente do ambiente da sua ocorrência, sempre serão lidas como elas são. Por exemplo, as vogais [o]e [e] serão lidas como elas são em qualquer contexto onde ocorrem. Veja-se as seguintes palavras:

Exemplos 1:

Xichangana: tolo “ontem” [e não tolu, como seria em Português]
ntete “gafanhoto” [e não nteti, como seria em Português]
Xiphamanini “bairro/mercado [lê-se i em todos os contextos]
buluku “calças” [lê-se u em todos os contextos]

Cindau:

masoko “notícias” [e não mazoku, como seria em Português]
shamwari “amigo” [lê-se i em todos os contextos]
ruwa yedu “nossa flôr” [lê-se u em todos os contextos]

Shimakonde:

madodo “pernas” [e não madodu, como seria em Português]

Ainda sobre as vogais, há uma particularidade nas línguas bantu. Algumas destas línguas possuem dois tipos de vogais, as breves e as longas. As breves (ou não alongadas) são representadas na escrita por uma letra, ou seja, são escritas normalmente.

Tabela 6: Vogais breves

Exemplos 2:

Xirhonga: mabomu “limões” ndlala “fome”

Cinyungwe:

manja “mãos”

ntsomba “peixe”

Em contrapartida, as vogais longas são escritas duplicando a letra correspondente.

Tabela 7: Vogais longas

A representação destas vogais na escrita de algumas línguas moçambicanas é de extrema importância, pois através delas se pode distinguir o significado entre duas ou mais palavras. A sua representação é obrigatória em línguas como Emakhuwa, Ciyaawo, Echuwabu, Ciwute, onde duas palavras distinguer-se pelo alongamento da vogal, o que quer dizer que elas têm uma função contrastiva.

Exemplos 3:

Emakhuwa: omala “acabar” vs. omaala “calar-se”
omela “germinar” vs. omeela “repartir”

Ciyaawo:

kusoma “picar”

vs.

kusooma “estudar/ler”
kupata “obter/adquirir” vs. kupaata “sacudir/limpar”

Echuwabu:

bala “queimadura/bala”

vs.

baala “gazela”
otela “casar-se” vs. oteela “alegrar-se”

As consoantes

Certamente que na actividade que realizou em grupo, comparando o alfabeto do Português e da sua língua moçambicana, encontrou algumas semelhanças e diferenças entre elas. Boa parte das diferenças refere-se às particularidades da representação gráfica das consoantes das línguas moçambicanas que, de modo geral, segue os seguintes princípios:


(i) Cada consoante representa o mesmo som em qualquer ambiente de ocorrência.

Exemplos 4:

Citshwa: kukuma “encontrar” kukatekisiwa “ser abençoado/a”

Shimakonde:

lupapa “asa”

kwigwilila “escutar”

Xichangana:

kusaseka “ser bonito/a”

kucincana “trocar um ao outro/trocar-se”

(ii) Geralmente, as consoantes podem sofrer algumas alterações/modificações. Estas podem ser por:

a) Pré-nasalização

A nasalização, que na língua portuguesa é geralmente marcada em vogais, como em acção, também, funções, etc. nas línguas bantu ocorre frequentemente nas consoantes. Nas línguas moçambicanas, ela é marcada antepondo m/n antes de uma dada consoante ou grupo de consoantes. As especificidades ortográficas de cada língua ditam em que circunstâncias e que tipo de nasalização deve ser marcada.

Exemplos 5:

Cicopi: ngoma “batuque” nkondo “pé”

Ndau:

mbuto “lugar”

mvura “chuva”

Kimwani:

mainsha “vida”

mumbu “escroto”

b) Aspiração

A aspiração, que na escrita é marcada por h, é um processo fonológico muito presente em todas as línguas moçambicanas. A aspiração é, em muitos casos, contrastiva, ou seja, pode servir para distinguir o significado entre duas ou mais palavras em uma dada língua.

Exemplos 6:

Cinyungwe: kutota “molhar-se” vs. kuthotha “expulsar”

Xichangana:

kupakela “carregar”

vs.

kuphakela “distribuir”

c) Labialização

Nas línguas bantu, há um princípio segundo o qual não é regular que duas ou mais vogais sejam escritas seguidamente em uma dada palavra, como acontece na língua portuguesa, em que podemos encontrar a sequência de duas ou três vogais, denominadas por ditongos e tritongos, respectivamente. Assim, para se evitar a sequência das vogais u, a, e, i na escrita de uma determinada palavra recorre-se a dois processos, nomeadamente a labialização e a palatalização.

Exemplos 7:

Cisena: kugwesa “deixar cair” cf: [kuguesa]

Cibalke:

hwinga “matrimónio” cf: [huinga]

Cimanyika:

imbwa “cão” cf: [imbua]

d) Palatalização

A palatalização é uma estratégia para evitar a sequência de vogais, principalmente de i, a, e, o. Ela é marcada por inserção de y.

Exemplos 8:

Gitonga: gyanana “criança” wupya “novo/a” cf:[gianana, wupia]

Cinyanja:

kupya “queimar-se”

kudya “comer”

cf: [kupia, kudia]

IMPORTANTE

A labialização e a palatalização são estratégias para se evitar a sequência das vogais na ortografia das línguas moçambicanas. Contudo, em algumas línguas moçambicanas, onde ainda não existem muitos estudos linguísticos, persistem algumas incoerências na escrita, como é o caso de ndaenda em Cibalke, em que, obedecendo à regra anunciada anteriormente, a escrita correcta desta palavra seria ndayenda.


Actividade 4

Trabalho em grupo
  1. Observando o critério de equidade de género, formem grupos de falantes da mesma língua ou de línguas inteligíveis/próximas. O grupo deve ter 4 a 5 formandos. Individualmente, tentem ler os dois textos que a seguir vos são apresentados;
  2. Caso haja um/a falante de cada uma das línguas dos textos abaixo (ou outro/a que entende), lê em voz alta para a turma, quantas vezes necessárias. A seguir traduz para Português, oralmente;
  3. Nos vossos grupos, procurem identificar as modificações que ocorrem nos dois textos, assim como as diferenças entre as vogais;
  4. Partilhem vossas constatações com um dos grupos mais próximo do vosso, sistematizem-nas e as apresentem para a turma;
  5. Elaborem um pequeno texto, de aproximadamente 300 palavras, sobre uma das danças tradicionais típicas da zona onde é falada a vossa língua. Respeitem as formas de escrever nessa língua;
  6. Partilhem o vosso texto com grupos de falantes de línguas próximas. Corrijam em pares os erros de escrita e depois rescrevem o texto;
  7. Apresentem o vosso texto, lendo e o traduzindo oralmente, para a turma. Se o grupo achar melhor e as circunstâncias permitirem, pode representar o modelo da tal dança descrita no texto.

Texto 1: Emakhuwa

ETUUFU

Etuufu eri nisoma na ofayi. Ela eniiniwa ni athiyana

Nisoma na etuufu niniiniwa ni makhata. Etuufu eniiniwa Wamphula, oKhaapu Telekaatu ni oSampeesiya. Ofuntti wa anamwane a etuufu onikhala woottittimihiwa.

Nihaana olaleya etuufu mulaponi mu. Nisoma na etuufu olokiha eruttu.

[in MINEDH e Vamos Ler (coord) (2017)]

Texto 2: Cinyanja

NGOMA

Galu akalira keke.

Galu akalira keke palinyama.

Atakhala kholwa?

Atakhala kholowa! Galu sangalile (2x)

Galu akhalira keke palinyama.

(Dança popular de Angónia, Província de Tete)


(iii) Consoantes especiais ou raras

Nas línguas moçambicanas, há um conjunto de consoantes que são típicas de cada língua. São as chamadas consoantes especiais ou raras, cujo tratamento requer o conhecimento da língua em questão, razão pela qual este assunto não pode ser tratado de forma generalizada. Porém, tomemos Xichangana como exemplo.

Exemplos 9:

Xichangana: xiqamelo “almofada” mugqhivela “sábado” n’qolo “carroça”

As consoantes marcadas são denominadas cliques. Nesta língua, há um número considerável de vocábulos de uso corrente, muitos deles que surgiram por empréstimos vindos de outras línguas bantu sul-africanas como o Zulu e o Xhosa. Existem outras tantas consoantes especiais que aqui não foram mencionadas. Se quiser conhecê-las com mais detalhes, consulte, por exemplo, a separata sobre a padronização da ortografia do Xichangana.


(iv) Combinações de grafemas/consoantes

Uma das particularidades das consoantes das línguas moçambicanas é poderem combinar entre si para formar/representar um determinado som. Estas combinações não são aleatórias, mas estabelecidas conforme as convenções de escrita de cada língua.

Exemplos 10:

Xirhonga: hlolana “milagre” dzolonga “distúrbio” trolo “joelho”

Cindau:

padhuze “perto”

pfuma “riqueza”

zvakanaka “bom”

Importante

Há uma preocupação em se harmonizar a ortografia das línguas moçambicanas para que a mesma letra represente o mesmo som existente nas diferentes línguas. Por exemplo, o grafema /c/ representa o mesmo som em línguas Cicopi, Ciyaawo, Cisena, daí a escrita dos nomes destas línguas ser Cicopi, Ciyaawo, Cisena, respectivamente. Contudo, em alguns casos, esses consensos não foram ainda conseguidos. Por exemplo, /x/ e /sh/, em Xichangana e Shimakonde, têm a mesma pronúncia nas duas línguas, mas representadas de formas diferentes.


Resumo

Tal como as vogais, qualquer consoante nas línguas bantu de Moçambique representa um e único som, independentemente do ambiente em que ocorre. As consoantes podem ser modificadas por pré-nasalização, aspiração, labialização e palatalização. Duas ou mais consoantes podem ser combinadas para representar um determinado som na língua. Em algumas línguas moçambicanas existem consoantes especiais ou típicas.


Actividade 5

Trabalho aos pares

Parte 1: Com o/a seu/sua colega, falante da mesma língua moçambicana que a sua, procurem o maior número possível de palavras com consoantes combinadas. A seguir, confrontem os resultados da vossa busca com o que vem estabelecido nas regras sobre a padronização da ortografia da vossa língua;

Parte 2: Com o/a mesmo/a colega, elaborem um pequeno texto sobre paridade entre rapazes e raparigas no acesso à educação primária. Se for necessário, podem incluir outras palavras que não tenham consoantes combinadas. Na sequência, visitem a biblioteca do IFP ou da Escola para consultarem, nos livros infantis escritos em línguas locais/moçambicanas, algumas das palavras que tenham consoantes combinadas;

Parte 3: Dois a dois ou em grupo de três colegas, procurem encontrar o maior número de palavras que ilustrem os casos de modificação de consoantes na vossa língua moçambicana. A seguir, discutam a leitura e a escrita dessas palavras com os restantes falantes dessa língua ou em plenário com a turma.


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Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual