Módulo 2 | Sistema de Sons e Ortografia das Línguas Moçambicanas

Aula 4 | O Sistema de Escrita nas Línguas Moçambicanas: Escrita Conjuntiva e Disjuntiva

O sistema de escrita nas línguas moçambicanas: escrita conjuntiva e disjuntiva

As aulas anteriores serviram de base para chegarmos aqui. Nesta serão abordados os princípios gerais do sistema de escrita nas línguas moçambicanas. Não se apresentarão os sistemas de escrita das 19 línguas moçambicanas padronizadas, mas dar-se-á uma visão geral de como se deve escrever nestas línguas. O aprofundamento da escrita de uma língua particular será feito por você, com o apoio dos materiais existentes e muita prática. Para iniciar com este assunto, faça a actividade que se segue:


Actividade 6

Trabalho independente

Traduza, para a sua língua moçambicana, o texto que se segue e responda as questões apresentadas.

Saúde da mulher e da criança!

A saúde das mulheres e das crianças pode melhorar muito se o intervalo entre um e outro parto for, de pelo menos, dois anos.

A mulher deve evitar a gravidez antes dos 18 anos. Antes desta idade, o corpo da mulher ainda não está suficientemente desenvolvido para suportar a gravidez. Também, a mulher deve limitar os partos a apenas quatro para ter boa saúde.

(Adaptado de “As Dez Mais”, de UNICEF, OMS e UNESCO, in Ngunga e Faquir: 2011, p.33)

  1. O que achou desta actividade? Acha que traduziu bem e usou bem as regras de escrita da sua língua moçambicana? Porquê? Qual é o sistema ortográfico de referência que usou na sua tradução?
  2. Partilhe o texto que traduziu com um ou dois colegas. Que aspectos ortográficos lhe chamaram atenção no texto do colega?

Afinal, como é que se escreve correctamente nas línguas moçambicanas?

Uma das características particulares destas línguas é serem aglutinantes, o que quer dizer que há elementos que se vão juntando a uma base morfológica. Neste caso, significa que são línguas em que a maior parte dos elementos morfossintácticos são escritos juntando-se/aglutinando-se, principalmente, ao verbo. Esta característica fez com que, de um modo geral, se adoptasse a escrita conjuntiva para se escrever nestas línguas. Contudo, em certos casos recorre-se à escrita disjuntiva, a oposta à conjuntiva, porque separa unidades, para opor significados e/ou funções. A seguir, apresentam-se os contextos em que se usa a escrita conjuntiva e a escrita disjuntiva.


(i) Usa-se a escrita conjuntiva nas seguintes situações:

a) Na conjugação verbal

Geralmente, junta-se ao verbo todos os morfemas flexionais (temporais, modais, aspectuais, de negação, de concordância com o sujeito, de objecto, de reflexividade).

Exemplos 11:

Shimakonde: Luciya andincumila Lukaxi ximbayambaya. “A Lúcia comprou um tractor para o Lucas.”

Emakhuwa:

Miyo kihomutumihelra enaama mulopwana. “Eu vendi a carne ao homem.”

Xichangana:

Tate angatasvikota kusveka wusva. “A mana não conseguirá cozinhar xima.”

b) Nos verbos reduplicados

Os verbos reduplicados são, na sua maioria, escritos na forma conjuntiva. Dependendo do estabelecido na ortografia de cada língua particular, estes podem ser separados por meio de um hífen.

Exemplos 12:

Xirhonga: kutrutrumatrutruma “correr de um lado para o outro”

Kimwani

kufyomafyoma “estudar, estudar (estudar repetidas vezes)”

Cinyungwe:

kunemba-nemba “escrever, escrever (escrever repetidas vezes)”

c) Nas locuções – na maior parte das línguas moçambicanas, as locuções são escritas conjuntivamente. Esta estratégia serve para opor significados de algumas frases.

Exemplos 13:

Xichangana: hambilesvi “embora/ainda que” vs. hambi lesvi ; Lit “mesmo estes”

(ii) Usa-se a escrita disjuntivas nas seguintes situações:

a) Nas partículas genitivas, associativas, nos locativos que não indicam nomes de lugares, instrumentais, causais, agentivas e temporais.

Exemplos 14:

Cibalke: Ine ndaenda kuya lirira. “Eu fui ao funeral.”

Citshuwa:

Ngwana yidelwe hi ngwenya. “o e cão foi morto por um crocodilo.”

b) Nas cópulas verbais, partículas com funções sintácticas de verbos copulativos.

Exemplos 15:

Xichangana: Hi yena mujondzisi. “É ele o professor.”

Ciyaawu:

Saadimu ni muundu.

“Salimo é (boa) pessoa.”

Cibalke:

Aiwe ndiwe wani?

“Quem és tu?”

(iii) Uso da maiúscula

Usa-se a inicial maiúscula para a escrita de nomes próprios, nomes de lugares e de instituições, de títulos honoríficos, de nomes dos meses do ano, início de um parágrafo e a seguir a um ponto continuado.

Exemplos 16:

Ciyaawo: CeeNd’ala “Senhor Nd’ala”

Cisena:

Buku ya kufundzisa malembero

“Livro de ensinar a escrever”

Cinyanja:

Olemezeka Mulauzi

“Excelência Mulauze”; Malichi “Março”

(iv) Uso do hífen e do apóstrofe

Algumas línguas adoptaram o hífen e o apóstrofo no seu sistema de escrita. As circunstâncias de uso destes sinais gráficos são ditadas pelas regras estabelecidas nas línguas que os adoptaram.

Exemplos 17:

Cimanyika: n’ombe “boi”

Shimakonde:

ng’avanga

“cão”

Cicopi:

civhika-nduku

“tipo de insecto”; Tsula-ka! “vai, então!”

(v) Sinais de pontuação

Os sinais adoptados nas línguas moçambicanas são os universalmente conhecidos e com a mesma função. São eles:


Para melhor aprofundamento das especificidades das normas e/ou regras de escrita estabelecidas nas línguas moçambicanas, consulte as separatas ou os relatórios sobre a padronização da ortografia destas línguas.


Texto

No dia em que os sinais de pontuação se conheceram

Era uma vez, uns sinaizinhos muito bonitos e interessantes que resolveram encontrar-se para conversar sobre como os meninos e as meninas da 6ª classe os usavam nos seus trabalhos. Eles não estavam felizes porque alguns meninos e meninas não os usavam bem ao escrever. Eles sabiam da existência uns dos outros, mas nunca se tinham encontrado. O que será que vai acontecer?

Ponto de Interrogação: - Olá, quem és tu? O que é que fazes?

Ponto: - Olá, eu sou o Ponto (.), umas vezes sou continuado outras vezes sou final. Trabalho muito. Toda a gente que escreve usa-me sempre. Sem mim como é que iam terminar as ideias e as frases? Quando as pessoas querem escrever palavras abreviadas também me usam. E tu, quem és?

Ponto de Interrogação: – Eu sou o Ponto de Interrogação (?). É através de mim que as pessoas fazem perguntas e satisfazem a sua curiosidade. Como é que ias fazer preguntas se não fosse eu?

Ponto: – Olha que tens razão, Ponto de Interrogação! Olha, chegou mais um colega, quem será?

Ponto de Interrogação: – Deixa-me perguntar quem é ele, afinal, é a minha função!

Ponto: – Está bem, podes perguntar.

Ponto de Interrogação: – Olá, quem és tu? Eu sou o ponto de interrogação e este é o nosso colega, o Ponto Final.

Ponto de Exclamação: – Olá, eu sou o Ponto de Exclamação (!). Muito prazer em vos conhecer! Eu sirvo para as pessoas que escrevem mostrar admiração, surpresa, dor e prazer.

Ponto: – Bem-vindo ao grupo!

Ponto de Exclamação – Obrigado! Vejam, está uma colega a chegar. Ela é mais pequenina que nós!

Ponto de Interrogação: – Olá, quem és tu? Eu sou o ponto de interrogação, estes são os nossos colegas Ponto Final e Ponto de Exclamação.

Vírgula: – Eu sou a vírgula (,), tenho muito prazer em vos conhecer!

Ponto de Interrogação: – O que é que fazes? – Perguntou o Ponto de interrogação, sempre curioso!

Vírgula: – Eu faço muita coisa como vocês, mas tenho três funções principais: marco as pausas curtas; separo o nome de lugar na indicação de datas; listo coisas dentro das frases.

Ponto de Exclamação: – Ena! Tanta coisa!

Vírgula: – É verdade, mas, muitas vezes, trabalho com o amiguinho do ponto e meu também.

Ponto de Interrogação: – Ai é? Quem é?

Vírgula: – Adivinhem! Quem quer adivinhar?

Ponto Final: – Eu, eu! É o ponto e vírgula! – Nisso estava a chegar o ponto e vírgula.

Ponto e Vírgula: – Ouvi o meu nome? Quem são vocês?

Todos – Queremos ser os teus amiguinhos. O que fazes tu?

Ponto e Vírgula: – Eu sou o ponto e vírgula. Como diz o meu nome, estou entre o ponto e a vírgula. Ajudo o ponto a separar orações coordenadas grandes.

Todos: – A partir de hoje vamos fazer tudo juntos!

Ponto e Vírgula: – Que maravilha! Há muito tempo que queria ter amiguinhos com quem trabalhar e brincar.

Ponto: – Parece que vem mais alguém.

Ponto de Interrogação: – Ai é? Quem será?

Ponto de Exclamação: – Humm, estou a ver dois pontinhos!

Dois Pontos: – Olá, eu sou o dois pontos (:). Estão todos aqui! Que bom!

Ponto de Interrogação: – É verdade! O que é que tu fazes? Gostarias de trabalhar connosco?

Dois Pontos: – Claro que sim, obrigado pelo convite. Eu introduzo a fala dos personagens, também a listagem de temas ou assuntos.

Travessão: – Oh, que bom! Eu também inicio a fala de personagens. De cada vez que um de vocês fala, na escrita usa-se um travessão (–), eu!

Todos: – Vivaaaa, agora estamos todos juntos, já nos conhecemos! Vamos poder trabalhar juntos para ajudarmos as pessoas a escrever bem!

Patel, S.A.; Tembe, F., e Majuisse, A.


Actividade 7

Teatro do leitor

Formem um grupo de 5 elementos. Observem o equilíbrio de género na formação do grupo.

Lembrem-se que os sinais de pontuação marcam o tom e a entoação com que nós falamos!


Actividade 8

Trabalho Independente

Resumo

O sistema de escrita nas línguas moçambicanas baseia-se no princípio da escrita conjuntiva. Casos há em que se recorre à escrita disjuntiva. Há línguas que adoptaram o hífen e o apóstrofe no conjunto de sinais gráficos, à semelhança do uso da letra maiúscula e dos sinais de pontuação. Embora haja similaridades, cada língua moçambicana tem o seu sistema de escrita padronizado e independente.


Exercícios de auto-avaliação

Com base no quadro comparativo sobre os grafemas da língua portuguesa e das línguas bantu, responda, no seu caderno às questões que se seguem:

  1. Que relação existe entre a fala e a escrita? Use exemplos da sua língua bantu para sustentar a sua resposta.
  2. Quais as principais diferenças entre a ortografia do Português e da sua língua moçambicana quanto a:
  3. Indique, pelo menos, 4 pares de palavras em que o significado é distinguido a partir da aspiração (se ocorrer na sua língua moçambicana).
  4. Elabore um texto expositivo argumentativo.de, pelo menos, 250 palavras sobre língua e género ou sobre linguagem sexista.

O texto deve ser escrito na sua língua moçambicana, respeitando os princípios e normas de escrita estabelecidas para essa língua. Pode usar a separata sobre a padronização da ortografia da sua língua, como referência. Use devidamente os sinais de pontuação na elaboração do seu texto.


Saiba Mais

Aprofunde sue conhecimento. Assista ao vídeo: Phatyma (curta-metragem) AfricaMakiya.


Assista à Videoaula

Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual