Módulo 3 | O Nome nas Línguas Moçambicanas

Aula 1 | O Nome nas Línguas Bantu

O NOME NAS LÍNGUAS BANTU

Como já deve ter notado, os assuntos tratados nos módulos estão interligados de forma a estabelecer-se um continuum entre si. O estudo do nome surge na sequência das temáticas anteriores e visa, fundamentalmente, explorar o funcionamento interno da sua língua moçambicana de trabalho. Uma vez que já conhece as regras de escrita destas línguas, aqui vai aplicar esse conhecimento na análise, leitura e escrita. Vamos, então, ver como se comporta o NOME nas línguas moçambicanas.


O nome nas línguas Bantu de Moçambique

Formem grupos de 3 formandos e formandas. Em cinco minutos reflictam sobre as seguintes questões:

  1. Já deve ter dito ou ouviu alguém a dizer: meu nome é…ou chamo-me…! Tem alguma ideia do porquê destas expressões?
  2. Qual será a razão disso?
  3. Como se caracteriza o nome na língua portuguesa? (consultem o Manual de Língua Portuguesa, pp, 17 – 19).

Agora vamos perceber um pouco sobre como o nome se comporta nas línguas moçambicanas. Prestemos atenção ao que se diz a seguir:

Quando ouvimos a palavra nome, temos logo a ideia de identidade. Isso é porque o nome é uma palavra atribuída a pessoas, animais, eventos, coisas e objectos, para os distinguir dos demais seres ou objectos semelhantes, atribuindo-lhes uma identidade própria. Assim, quando atribuído aos seres humanos, por exemplo, a uma criança ao nascer, esse nome denomina-se de nome próprio, apelido, nome de casa, nome tradicional, entre outras denominações.

Em Linguística, particularmente na gramática, o nome é um substantivo, isto é, uma palavra que se usa para indicar uma classe (conjunto) de coisas, pessoas, animais, um lugar, um acidente geográfico, um astro, entre outros referentes.

Tendo em conta o seu uso e forma, o nome pode ser categorizado em próprio, comum, concreto, abstracto, colectivo, simples, composto, primitivo e derivado. Nas aulas subsequentes, trataremos, de forma mais detalhada, a natureza do nome, com particular atenção para o primitivo e o derivado nas línguas moçambicanas.


Estrutura do nome nas línguas Bantu de Moçambique

Como se referiu anteriormente, o nome/substantivo pode ser classificado usando-se vários critérios e daí surgir a sua categorização. Um dos principais critérios para a classificação do nome é a sua estrutura. Nas línguas moçambicanas e noutras do mundo, o nome varia em classe, género e número. Nas línguas moçambicanas, o nome chama atenção pela forma como se organiza de acordo com os prefixos que indicam, tanto o número gramatical, como o género, ao contrário da oposição feminino e masculino ou neutro, dos quais estamos habituados na língua portuguesa. Aliás. Uma das características principais que vimos é que as línguas moçambicanas são, por excelência, prefixais. Afinal, o que isso significa? Vamos fazer o exercício que se segue:


Actividade 1

Trabalho independente

1. Atente ao quadro seguinte e traduza as palavras dadas para o singular e para o plural na sua língua moçambicana.

Em Português Na sua língua moçambicana
Singular Plural
Professora
Aluno
Livro
Escola
Galinha
Vento

Tabela 8: Vocabulário para exercício de indução.



Com o exercício acima, verificou que o nome na sua língua moçambicana apresenta duas partes muito bem destacadas e que ocupam lugares distintos e estáveis. Essas partes têm características específicas, sendo que a primeira, denominada por prefixo que, geralmente, mostra a distinção entre o singular e o plural, é variável, ao passo que a segunda, designada tema, é constante, excepto em situações em que os segmentos do prefixo ocasionam alterações morfofonológicas. Veja-se os exemplos seguintes:

Exemplos 1:

Emakhuwa: kharumu vs. akharumu “leão vs. leões”
mwalapwa vs. alapwa cf.[mu-alapua] “cão vs. cães”

Cinyungwe:

mwezi cf.[mu-ezi]

“lua/mês”

Citshwa:

cimanga vs. zvimanga

“gato vs. gatos”

Resumidamente, o nome nas línguas Bantu é constituído por um prefixo, que pode estar presente ou não e que é váriavel (singular vs. plural), e um tema, que é invariável.


Classes Nominais

Na aula anterior viu que o nome apresenta duas partes, nomeadamente o prefixo variável em função da classe e o tema nominal, geralmente, invariável. Esta composição é de extrema importância para a conceptualização do que é uma classe nominal.

Diz-se que duas ou mais palavras pertencem à mesma classe nominal quando estas exibem o mesmo prefixo e/ou o mesmo padrão de concordância. Veja-se os exemplos a seguir:

Exemplos 2:

Ciyaawu: Cipula ca muumbele cila cijaasiice. “Aquela faca que me deste perdeu-se.”
cigaayo ca cikulungwa “moagem grande”

Cithswa:

Mugondzisi avhumele muholo.

“O professor não teve seu salário.”


Josiyani avitanilwe hi kokwani.

“O Jossias foi chamado pela vovó.”

Nos exemplos de Ciyaawo e Citshwa, observamos o que se disse anteriormente. Em Ciyaawo, temos nomes cipula e cigaayo, que exibem os mesmos prefixos, e, por conseguinte, o mesmo padrão de concordância. Em contraste, nos exemplos em Citshwa, o nome Josiyani não exibe nenhum prefixo como acontece com mugondzisi, embora os mesmos nomes pertençam à mesma classe. Com efeito, ambos desencadeiam o mesmo padrão de concordância avhumele e avitanilwe, cujo morfema de concordância é a-, respectivamente.


Actividade 2

Trabalho de grupo
  1. Organizem-se em grupos linguísticos. Elaborem uma lista de palavras que pertençam à mesma classe, à vossa escolha, tendo em conta o princípio de padrão de concordância;
  2. Debatam em grupo e podem trocar a vossa lista com outros grupos;
  3. A partir do exercício acima, aperceberam-se de aspectos sobre as classes nominais nas vossas línguas moçambicanas. Isso se deve ao facto de o léxico destas línguas encontrar-se organizado em grupos de palavras com características semelhantes - as tais classes nominais – que, segundo alguns estudos, variam entre 19 a 20, dependendo da língua. Esta disposição do léxico dá origem ao que já se referiu: a noção de género.

Nas línguas moçambicanas, fala-se de género, não na mesma perspectiva de género (masculino/feminino) usado na descrição morfológica do Português.

No caso das línguas moçambicanas, o género é a associação regular de nomes em pares que opõem o singular do plural (exemplo, Gitonga “muhevbudzi/vahevbudzi” “professor/a, professores/as)”; Além desta combinação, podemos encontrar géneros de uma classe, em que não se verifica a oposição entre o singular e o plural (exemplo, Ciyaawo: njete “sal”). Há ainda géneros tripartidos, em que, para além da oposição singular/plural há também o colectivo (por exemplo, Xirhonga: “nsokoti” “formiga”; “tinsokoti” “formigas”; vusokoti “formigueiro/colónia)”.

No que concerne à organização lexical, estudos indicam que a organização das palavras em classes tem, historicamente, uma base semântica, uma vez que (i) em muitos casos ainda persiste a ocorrência de nomes pertencentes ao mesmo grupo semântico e (ii) existem também outras classes onde há predominância de nomes que, facilmente, podem ser agrupados em conjuntos mais gerais. Porém, independentemente desta realidade, é quase impossível encontrar uma classe nominal que seja constituída apenas e, exclusivamente, por nomes da mesma classe semântica.

Por exemplo, em Emakhuwa, mwalapwa /alapwa “cão /cães” encontram-se nas classes 1 e 2, respectivamente, predominantemente, referentes ao ser humano.

A seguir, apresenta-se uma tabela ilustrativa de prefixos e classes nominais das línguas moçambicanas.

Classes nominais Prefixos do Proto-Bantu Alomorfes dos prefixos do Proto-Bantu nas línguas bantu de Moçambique Categorias semânticas predominantes
1
2
*mu-
*ba-
mu-, mwa-, n’-,
n’wa-, m’-, ø-
va-, a-
Nomes que se referem a seres humanos, basicamente
3
4
*mu-
*mį-
mu-, n’-, ø-
mi-
Nomes que se referem a plantas, predominantemente
5
6

*ma-
li-, lu-, ni-, ri-, di-, ø-
ma-, ø-
Nomes que se referem a animais e frutas, basicamente, e a substâncias e coisas incontáveis
7
8
*ki-
*bį-
xi-, ci-, e-, shi-, ki-, gi-
svi-, zvi-, i-, si-, vhi-, vi-, pi-, bzi-, yi-
Nomes que se referem a coisas, objectos, basicamente.
9
10
*N-
*N-
ø-, ya-, m-, n-
ø-, dza-, ti-, di-, zi-
Nomes que se referem a alguns seres do reino animal e outros
11 *du- lu-, li- Nomes que se referem predominantemente a coisas longas
12
13
*ka-
*tu-
ka-
tu-
Nomes que se referem predominantemente ao diminutivo no singular
Nomes que se referem ao diminutivo no plural
14 *bu- wu-, vu-, u-, o- Nomes que se referem predominantemente a coisas abstractos, incontáveis
15 *ku- ku-, gu-, o- Formas infinitivas verbais
16
17
18
*pa-
*ku-
*mu-
pa-, ha-, va-
ku-, gu-, o-
mu-
Locativos situacionais
Locativos direccionais
Locativos de interioridade
19 *pį-

Tabela 9: Resumo dos prefixos e classes nominais das línguas bantu moçambicanas.


Ficha informativa

Léxico - Conjunto de palavras existentes e aceites numa dada língua, ou seja, é o vocabulário de um idioma.

Prefixo – Parte da palavra que se antepõe à base ou morfema que se coloca antes dos radicais para lhes modificar o sentido.

Alomorfes – São diferentes formas em que um morfema se apresenta, tendo em conta o contexto morfonológico em que ocorre.

Diminutivização – Processo gramatical que consiste na redução do que a palavra refere (preferencialmente substantivos) em tamanho, volume, número.

Ideofones – Palavras icónicas que, quando pronunciadas, dão ideia de dor, cor, estado, acção. São mais frequentes no grupo das línguas bantu.


Resumo

O nome nas línguas bantu apresenta características pouco comuns relativamente a outras línguas do mundo. Ele é constituído por duas partes distintas, nomeadamente o prefixo, a parte variável do nome, e o tema, a parte invariável.

Nestas línguas, os nomes estão organizados em classes, que são conjuntos de duas ou mais palavras que apresentam o mesmo prefixo ou que exibem o mesmo padrão de concordância. Dependendo da língua, as classes nominais variam entre 10 e 20, sendo que as classes nominais de 1 a 11 e 15 são as mais produtivas.


Actividade 3

Trabalho em grupo: pesquisa
  1. Leiam atentamente a Tabela 9 sobre as classes nominais das línguas moçambicanas;
  2. Formem grupos de falantes da mesma língua ou de línguas próximas. Tentem estabelecer o maior número de classes nominais possíveis na vossa língua moçambicana;
  3. Para tal, terão que usar os conhecimentos que já têm sobre a estrutura do nome nas línguas moçambicanas e os conceitos de classe nominal e de padrões de concordância.

Para melhor realizarem a vossa actividade, podem recorrer a documentos já escritos sobre esta temática nas línguas moçambicanas, como por exemplo, o Relatório de Padronização da Ortografia das Línguas Moçambicanas em http://www.letras.ufmg.br/laliafro/PDF/Ngunga,%20Armindo%20Padronizacao%20ortografica%20-%203nd%20correcao.pdf ou na sua versão impresa, os Relatórios de Padronização da Ortografia das Línguas Moçambicanas 1 e 2 na sua versão impressa; Ngunga (2014) versão impressa.


Assista à Videoaula

Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual