Módulo 3 | O Nome nas Línguas Moçambicanas

Aula 2 | Formação de Novas Palavras nas Línguas Moçambicanas

Formação de novas palavras nas línguas moçambicanas

Tal como em muitas outras línguas do mundo, o vocabulário das línguas moçambicanas evolui e é enriquecido através de processos atinentes à própria língua, ao contexto e ao desenvolvimento. Destes processos, destacam-se a derivação, a composição, o empréstimo e a neologia.

Os processos de composição e neologia, embora menos desenvolvidos neste Manual, são de extrema importância na criação da terminologia científica. A título ilustrativo, a composição, que consiste na junção de duas palavras, já existentes na língua para formar uma nova palavra com sentido independente, é frequente nas línguas moçambicanas. Por exemplo, em Shimakonde, palavras como natumba-mavi “escaravelho”; nantumbula- shilongo“l ouva-a-deus”; ndiva-mena “pronome”, jalula-mena “adjectivo” e em Xichangana, xitimela xa mati “navio”, xihaha mpfhuka “avião” e lihlanga kususa “sinal de subtração” são o resultado dos processos de composição e de neologia.

A seguir trataremos um pouco mais dos processos de derivação e de empréstimo por serem especiais nas línguas moçambicanas.


Derivação nominal

A derivação é um dos processos mais produtivos nas línguas moçambicanas, se não mesmo o mais importante. Com este processo, pode-se derivar nomes a partir de nomes, de verbos, de ideofones, dentre outras categorias lexicais. O nome derivado, diferentemente do nome primitivo, tem características semânticas específicas. Os derivados a partir de verbos e de ideofones, para além de apresentarem o prefixo nominal, o tema tem a particularidade de conter uma parte da informação do derivante. Vamos tomar estas três categorias e mostrar como se processa a derivação nominal:


a) Derivação do nome a partir de outro nome

Partindo de um nome primitivo, um nome normal, pode-se derivar um outro que toma o nome de nome derivado. Veja-se os seguintes exemplos:

Exemplos 3:

Xichangana: mbilu “coração” vumbilu “bondade”
vachangana “grupo étnico” vuchangana “modus vivendi/forma de viver dos vachangana”

Emakhuwa:

muteko “trabalho”

namuteko “trabalhador”

Cinyanja:

Cinyanja “língua”

n’nyanja “falante de nyanja;pessoa de etnia nyanja”

b) Derivação do nome a partir de verbos

O verbo constitui uma das categorias lexicais mais permeáveis para a derivação nominal. Dele pode-se derivar nomes de diferentes funções semânticas (agentivo, instrumental, inventivo, resultativo). Veja-se os exemplos a seguir.

Exemplos 4:

Cinyungwe: kufamba “andar” mufambi “viajante”
kufamba “andar” cifambi “o que se usa para circular”

Cicopi:

kudota “pescar”

mdoti “pescador”


kutsimbila “andar/caminhar”

tsimbilelo “forma/estilo de andar”

c) Derivação do nome a partir de ideofones

Conforme referido anteriormente, os ideofones, uma das categorias lexicais mais produtivas nas línguas moçambicanas é um potencial gerador de nomes nas línguas. O ideofone é uma associação icónica entre um som e uma ideia que se constrói na mente dos falantes dessa língua.

Exemplos 5:

Xirhonga: psiyooo! “ideofone de assobiar” mupsiyoti “assobiador”
Elomwe: khokhokhoo! “ideofone de bater à porta” namakhoma “aquele que bate à porta”

d) A locativização

Nas línguas bantu, para além do uso dos advérbios, existem formas particulares para indicar circunstância de lugar, de tempo, de direcção, etc. Estas formas consistem em agregar, por meio da prefixação ou sufixação, pequenas partículas (morfemas) a nomes de qualquer classe, surgindo, desta forma, uma nova palavra. Por exemplo, entre os falantes das línguas do grupo Shona, as palavras como pacikoro, “na escola” kucikoro “(lá) na escola” e mucikoro (dentro da escola) dão ideias de situação/proximidade, direcção/distância e interioridade, respectivamente, através da prefixação de pa-; ku- e mu-, ao nome cikoro “escola”

Exemplos 6:

Shona: Mwana alikuyenda pacikoro. “A criança vai à escola”. (perto da escola)
Mwana ali kuxikoro. “A criança está na escola”.
Mwana ali muxikoro. “A criança está na escola”. (dentro)

Estas estratégias também são usuais em Emakhuwa, Ciyaao, Shimakonde, entre outras. Na maior parte das línguas da zona sul do país, embora a prefixação, usando ka-, seja presente, a estratégia mais produtiva é da sufixação, usando -eni/-ini, principalmente para dar a ideia de interioridade ou localização/situação. Vejamos alguns exemplos:

Exemplos 7:

Gitonga: Eni nyiwomo tsetshini. “Estou na igreja”. (dentro da igreja)
Xichangana: Phembelani a kusvekeni “O Phembelani está cozinhando”.
Xirhonga: Mini nimpfa hi kaTembe “Sou natural kaTembe”. (zona)

Tendo em conta as especificidades da locativização em cada língua moçambicana, apresentou-se aqui informações gerais para que se tenha em consideração este assunto. Caberá ao formando/a desenvolver este tema na sua língua moçambicana específica, de modo a encontrar as particularidades e as estratégias específicas da locativização nessa língua.


Ficha informativa

Os nomes mupsiyoti e namakhoma, dos exemplos 5, não derivam directamente do ideofone, como acontece nos exemplos 4, que derivam directamente do verbo. Isso se deve ao facto de estes derivarem de ideofones verbalizáveis, isto é, ideofones que dão origem a verbos através de um processo denominado de verbalização.


Empréstimos nominais e critérios de sua integração nas línguas moçambicanas

Conforme oi observado, os empréstimos constituem uma forma de enriquecimento do vocabulário de uma dada língua e estas línguas não são uma excepção. Os empréstimos são, em geral, palavras vindas de outras línguas, próximas ou distantes, para incrementar o vocabulário da língua de chegada ou para designar uma realidade nova entre os falantes dessa mesma língua.

Nas línguas moçambicanas, os falantes de cada língua acomodam as novas palavras de tal forma a serem usadas normalmente tal como as restantes da língua. Para perceber como isso se processa, faça o pequeno exercício que se segue.


Actividade 4

Estudo independente

1. Traduza cada uma das palavras dadas abaixo na sua língua moçambicana de trabalho.

  • (i) Bispo
  • (ii) Congelador
  • (iii) Geleira
  • (iv) Colher
  • (v) Chapa de zinco
  • (vi) Carro
  • (vii) Hospital
  • (viii) Gravata
  • (ix) Óculos
  • (x) Telefone

2. Qual é a língua que serviu de base para a entrada de cada uma destas palavras na sua língua moçambicana de trabalho?

3. Faça o enquadramento dessas palavras nas classes nominais da sua língua bantu de trabalho.


Como se apercebeu, os substantivos de (i) a (x) são maioritariamente nomes que não constituíam realidades da sua cultura moçambicana. Até pode não aceitar isso, mas com mais atenção irá perceber que estes nomes vêm de outras línguas, mas que foram acomodados na sua língua moçambicana de tal forma que funcionam como se fossem originariamente Bantu. Essa percepção resulta do facto de existirem, em cada língua, estratégias próprias para a integração desses nomes, comummente conhecidas por estratégias de integração e acomodação de empréstimos. Para o efeito, pode usar-se os seguintes critérios:

semântico,
fonético e
de prefixo zero


Veja a seguir como cada critério é aproveitado pelos falantes para acomodar palavras vindas de outras línguas.


a) Critério semântico

Quando uma palavra de uma língua qualquer entra para uma língua bantu, a primeira preocupação dos falantes dessa língua é procurar o significado da palavra em questão por forma a encontrar a classe semântica onde integrá-la. Veja-se os seguintes exemplos do Xichangana e do Ciyaawo.

Exemplos 8:

Cicopi: bixopo “bispo” (do Ing. bishop)
vabixopo “bispos”

Ciyaawo:

m’puluungama “eucalipto”

(do Ing. bluegum)

A razão de ser do enquadramento destes nomes recém-adoptados nestas classes, parece residir na sua semântica. Com efeito, a palavra bixopo, de ‘bishop’, em Inglês, é semanticamente relativa a pessoas. Por isso, ela foi integrada na classe 1, referente a seres humanos. Por conseguinte, o seu plural acede, automaticamente, ao prefixo nominal da classe 2, va-. A mesma interpretação se pode fazer para os casos do Ciyaawo, em relação ao critério adoptado para a integração do nome m’puluungama, “bluegum’” em Inglês, nas classes 3 e 4 (mu- e mi-), que semanticamente alojam predominantemente nomes de plantas.


b) Critério fonético

As línguas indo-europeias não organizam o léxico tal como o fazem as línguas moçambicanas. As palavras nessas línguas não apresentam prefixos de classe, daí que, quando uma palavra proveniente destas línguas entra para uma língua moçambicana e os falantes dessa língua não encontrarem uma classe semântica na qual a possam enquadrar, recorrem à possível semelhança entre o som inicial dessa palavra e o som de um prefixo de uma das classes nominais existentes na língua. Assim, o critério fonetico observa a semelhança fonética entre o som inicial da nova palavra (vinda de outra língua) e o som inicial do prefixo de uma das classes nominais existentes na língua moçambicana de chegada.

Exemplos 9:

Gitonga: xineli “chinelo” dzixineli “chinelos” (do Port. chinelo)

Xichangana:

xipuni “colher”

svipuni “colheres”

(do Ingl. spoon)

c) Critério de prefixo zero

Em certos casos, quando uma nova palavra entra numa língua moçambicana, os falantes podem não encontrar uma classe semântica na qual a possam enquadrar e nem uma possível semelhança entre o som inicial dessa palavra e o som de um prefixo de uma das classes nominais existentes na língua. Assim, a hipótese mais comum é a de incorporar a nova palavra em classes onde os prefixos não estão expressos. São, geralmente, os casos das classes 5, 9 e 10 (nas línguas em que existem) e são as mais propensas para alojar nomes vindos de outras línguas não prefixais. Vejam-se os seguuintes exemplos de Gitonga e Ciwute:

Exemplos 10:

Gitonga: Øthayi “gravata” mi-thayi “gravatas” (do Ing. tae)

Citewe:

Øgaradi “grade”

ma-garadi “grades”

(do Ing. grade)
Øbora “bola” ma-bora “bolas” (do Port. bola)

Actividade 5

Estudo independente: Projecto académico

Quando duas ou mais línguas entram em contacto, normalmente há troca de vocabulário/palavras entre elas. E quando a palavra chega na língua-alvo, os falantes encontram mecanismos para que ela seja usada tal como as outras palavras da língua, ou seja, tentam adequá-la à sua língua.

  1. Tendo em conta o conhecimento que você tem sobre este tema, elabore um projecto académico, no qual:
  2. No seu projecto, não se esqueça de mencionar (i) como recolheu as palavras, (ii) local de recolha e (iii) as características dos informantes (idade, sua língua materna).
  3. O trabalho deve conter: (i) uma introdução (ii) o desenvolvimento, (iii) as conclusões e (iv) as referências bibliográficas.

Nota: Dependendo da realidade da turma, este trabalho pode ser usado para aprofundamento e consolidação da temática dos empréstimos nominais, o que significa que depois pode ser partilhado entre os formandos, ou pode servir para avaliação.


Resumo

Existem vários mecanismos para o enriquecimento do vocabulário de uma língua, dentre as quais a derivação, a composição, o empréstimo e a neologia. A derivação é o processo mais produtivo na formação de nomes nas línguas moçambicanas. A derivação nominal pode ser feita a partir de nomes, verbos e ideofones. Os empréstimos, que são palavras vindas de outras línguas, constituem também um processo de enriquecimento do vocabulário de uma língua. A integração dos empréstimos nas línguas moçambicanas é feita por meio de três critérios, nomeadamente (i) semântico, (ii) fonético e (iii) de prefixo zero.


Exercício: Auto -avaliação
  1. A derivação é um processo de formação de palavras observável em quase todas as línguas do mundo. Nas línguas moçambicanas é muito produtiva e concorre para o alargamento do léxico destas línguas.

Ficha informativa

Sintagma nominal – é um conjunto de palavras organizadas de tal maneira a funcionar como uma unidade sintáctica, cujo núcleo é um nome.

Sintagma verbal – é um conjunto de palavras organizadas de tal maneira a funcionar como uma unidade sintáctica, cujo núcleo é um verbo.

Ideofone – é uma associação mental de um determinado som a uma realidade, que pode ser cor, dor, estado, intensidade, entre outras.

Flexão – é a modificação de uma palavra para expressar diferentes categorias gramaticais, como modo, tempo, aspecto, voz, pessoa, número, género, classe, e caso. A conjugação é a flexão dos verbos; a declinação é a flexão de substantivos, adjectivos e pronomes.

Afixos – são partículas gramaticais anexas a palavras de categorias principais como verbo, nome, adjectivo. Eles podem ser flexionais ou derivacionais.


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Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual