Módulo 4 | O Verbo e a Frase nas Línguas Moçambicanas

Aula 2 | A Reduplicação Verbal como Processo Derivacional nas Línguas Moçambicanas

A reduplicação verbal como processo derivacional nas línguas moçambicanas

Como já se fez referência, a reduplicação verbal permite aos falantes de uma dada língua alargar o seu vocabulário. Este processo consiste em repetir uma parte ou todo o tema verbal para formar um novo verbo. Quando se repete todo o tema, estamos, então, perante a reduplicação total, mas quando se repete apenas parte dele, trata-se, então, de reduplicação parcial.

Dado importante sobre a reduplicação é referente às implicações semânticas das formas reduplicadas, isto é, o seu significado. Assim, nas línguas moçambicanas, a reduplicação pode, semanticamente, exprimir a ideia de interacção, frequência e repetição de uma acção. Tomemos como exemplo o Gitonga e o Cinyungwe.

Exemplos 2:

Gitonga: gukhokhotela “pregar” guyemayema (cf. guyema) “passear”

Cinyungwe:

kufafanidza “apagar sinais”

kuyendayenda (cf. kuyenda) “caminhar frequentemente”

Nas duas línguas acima, temos as formas reduplicadas “gukhokhotela” e “kufafanidza”, que são denominadas de parciais e indicando iteractividade, e guyemayema e “kuyendayenda”, que são exemplos de reduplicação total, com o sentido de repetição da acção. A seguir vamos tratar especificamente de cada tipo de reduplicação.


Reduplicação total ou completa normal

A reduplicação total ou completa é aquela em que a parte que se repete é idêntica à base. Quase que sempre, o verbo reduplicado expressa o sentido de repetição, iteractividade, frequência de acções, factos e estados. Dado importante é que, em quase todas as línguas moçambicanas, os verbos reduplicados totalmente têm formas não reduplicadas correspondentes na língua e que são parte do vocabulário de cada uma dessas línguas, como ilustram os exemplos abaixo, retirados do relatório de padronização da ortografia das línguas moçambicanas.

Exemplos 3:

Xichangana: kufambafamba “andar repetidamente” (cf.kufamba “andar”)
kukhomakhoma “pegar repetidamente” (cf. kukhoma “pegar”)

Cisena:

kufungula-fungula “abrir frequentemente”

(cf.kufungula “abrir”)
kulangira-langira “tentar a sorte várias vezes” (cf. kulangira “tentar a sorte”)

Cimanyika:

kucema-cema “chorar frequentemente”

(cf.kucema “chorar”)
kukosora-kosora “tossir frequentemente” (cf.kukosora “tossir”)

Ciyaawo:

kupata-pata “obter frequentemente”

(cf. kupata “obter”)


Reduplicação total fossilizada

À semelhança da reduplicação total normal, a fossilizada consiste na repetição da base verbal. Todavia, as partes reduplicadas já não possuem sentido autónomo quando separadas, o que não acontece na reduplicação total normal, como se viu anteriormente. Para melhor compreensão deste processo, veja-se os seguintes exemplos:

Exemplos 4:

Cidema: kulewalewa “falar” cf. *kulewa

Ciyaawu:

kulavalava “ser malandro/a”

cf. *kulava

Cicopi:

kuwombawomba “falar”

cf. *kuwomba

Portanto, na reduplicação fossilizada, a palavra constituída não pode ser desagregada. Se assim acontecer, as partes separadas não possuem nenhum significado válido na língua ou o seu significado não tem nenhuma relação com a palavra reduplicada.


Reduplicação parcial

Como o próprio nome diz, a reduplicação parcial consiste na repetição parcial da base do verbo. Uma vez repetida, as partes que constituem a palavra formada não podem ser separadas. A reduplicação parcial tem as mesmas características da fossilizada. Em termos de significado, a reduplicação parcial dá a ideia de pequenas repetições de uma determinada acção ou evento. Veja-se os exemplos seguintes:

Exemplos 5:

Ekoti: kufufuwa “ressuscitar” kukokotha “raspar (comida na panela)”

Cinyungwe:

kujejera “ser frio”

kupswepswenga “beber pombe”

Xirhonga:

kutrutruma “correr”

kuphepherha “peneirar”

Reduplicação de verbo de duas sílabas

Para dar a interpretação de repetição, interactividade, frequência, aos verbos dissilábicos são agregados algumas partículas linguísticas, denominadas morfemas. Este assunto será abordado com algum detalhe nos pontos seguintes, todavia, veja-se alguns exemplos:

Exemplos 6:

Shona: kudayida “amar frequentemente” (cf. kuda “amar”)
kubayiba “roubar frequentemente” (cf. kuba “roubar”)

Elomwe:

kudyadyasha “comer repetidas vezes”


Xirhonga:

kunyetetela “defecar frequentemente”

(cf. kunya “defecar”)
kubetetela “bater repetidas vezes” (cf. kuba “bater”)

No caso dos exemplos em Xirhonga, deve-se notar que a parte pintada (-etetel-) não é necessariamente uma reduplicação em si, mas sim uma extensão verbal interactiva (-etel-) que se aplica a qualquer verbo, não apenas aos verbos dissilábicos. Acontece é que como nesta língua e outras, tais como, Xichangana, Gitonga e Citshwa e os verbos dissilábicos não são reduplicáveis por si, os falantes recorrem a esta partícula para dar a ideia de repetição da acção.

Exemplos 7:

Xirhonga: kuwa “cair” (*kuwakuwa) kuwetetela “cair frequentemente”

Xichangana:

kufa “morrer” (*kufakufa)

kufetetela “mortes/ chacina”

As formas reduplicadas dentro de parênteses e com estrela são tidas como agramaticais, ou seja, não são reconhecidas semanticamente na língua pelos falantes.

Há, no entanto, outras formas de se formar verbos a partir de palavras de outras categorias, nomeadamente ideofones, nomes, adjectivos e advérbios. Estas estratégias são também comuns nas línguas moçambicanas, porém a sua produtividade varia de língua para língua. Por essa razão, não foram aqui tratadas com detalhe. Nas suas actividades, individuais ou em grupo, poderá explorar estas estratégias em forma de trabalhos de desenvolvimento contínuo.


Resumo

O verbo nas línguas moçambicanas pode derivar outros verbos a partir de um processo denominado reduplicação. Há três tipos de reduplicação: (i) reduplicação total ou completa, (ii) reduplicação fossilizada e (iii) reduplicação de verbos dissilábicos. Os verbos reduplicados trazem a interpretação de repetição, interactividade ou frequência dos eventos ou acções.


Actividade 3

Trabalho de grupo

Em grupos de línguas inteligíveis, elaborem um projecto de pesquisa sobre as estratégias de formação de novos verbos. Não se esqueçam de indicar:


Derivação de verbos através de extensões

Nas línguas moçambicanas, há partículas simples, mas muito produtivas, usadas para a formação de novos verbos a partir dos já existentes. Essas partículas são denominadas extensões verbais. Os verbos formados a partir das extensões, embora o seu campo semântico seja o mesmo do do verbo mãe, têm significados diferentes do sentido inicial.

Algumas dessas extensões são comuns em quase todas as línguas moçambicanas, mas outras são menos frequentes, ocorrendo em algumas destas línguas. Ademais, estas extensões podem co-ocorrer na mesma estrutura verbal, formando um novo verbo, com sentido diferente do verbo de base. Apresentamos a seguir alguns exemplos de algumas línguas moçambicanas.

Exemplos 8:

Cisena: kugonera “dormir sobre/para…” (kugona dormir”)
kugonesa “fazer dormir/deitar”

Citshwa:

kuwonisa “fazer ver algo”

(kuwona “ver”)
kuholela “dar vencimento” (kuhola “receber vencimento”)
kuholelana “dar o vencimento um ao outro” (de forma recíproca)

Xichangana:

kuvutiselana “fazer-se perguntas um ao outro”

(kuvutisa “perguntar”)

Dado importante sobre as extensões verbais é o efeito que estas causam sobre a regência verbal. Cada uma ou sequência delas pode mudar o número de argumentos de um determinado verbo. Os exemplos anteriores (exemplos 8) mostram a influência das extensões verbais na manutenção, diminuição ou aumento do número de argumentos regidos por um verbo. Por exemplo, em Cisena, o verbo kugona “dormir” tem apenas um argumento que é o sujeito. Por outras palavras, é um verbo intransitivo. Porém, kugonesa “fazer dormir ou deitar” que deriva de kugona passa a ter dois argumentos, nomeadamente um sujeito e um objecto. Por outras palavras, kugona que era um verbo intransitivo, ao ser agregado uma extensão verbal (-es-) passou a kugonesa, um verbo transitivo. Vejamos os exemplos do uso de verbos extensos em contextos frásicos.

Exemplos 9:

Cindau: a) Mayi vabika nyama. “A mamã cozinhou carne.”
b) Mayi vabikira vana nyama. “A mamã cozinhou carne para as crianças.”

Cicopi:

a) Mami abhikite nyama.

“A mamã cozinhou carne.”
b) Mami abhikete nyama vanana. “A mamã cozinhou carne para as crianças.”

Emakhuwa:

a) Mama ohapiha enama.

“A mamã cozinhou carne.”
b) Mama ohapihela anamwane enama. “A mamã cozinhou carne para as crianças.”

Os exemplos anteriores servem apenas para demonstrar o que as extensões podem causar ao nível dos argumentos do verbo. Aqui usou-se apenas a extensão aplicativa (-el-). Porém, como se frisou anteriormente, nas suas actividades individuais, ou em grupo, você poderá explorar esta temática em forma de trabalhos de desenvolvimento individual contínuo.


Actividade 4

Estudo independente

Como já se fez referência, o tema das extensões verbais não foi aprofundado neste Manual. Aqui faz-se uma introdução para que você continue aprofundando este tema. Agora, recorrendo a Manuais e outros livros sobre a estrutura das línguas moçambicanas:

  1. Faça o levantamento das extensões verbais predominantes na sua língua;
  2. Escolha 10 verbos na sua língua moçambicana e forme outros tantos, usando as extensões verbais;
  3. Apresente os resultados da sua actividade ao seu grupo linguístico e à turma;
  4. Dos verbos normais e dos derivados por extensões, elabore um texto na sua língua moçambicana de trabalho. No texto pode incluir outras categorias gramaticais (classes de palavras). O texto deve respeitar os princípios de escrita da vossa língua (escrita conjuntiva e disjuntiva), a pontuação e coerência.

Flexão e afixos verbais

Antes de entrarmos na gramática da sua língua, faça o exercício que lhe propomos a seguir.


Actividade 5

Trabalho independente
  1. Escreva, no seu caderno, três frases: uma no passado, outra no presente e a última no futuro.
  2. Passe as mesmas frases para a forma negativa. O que notou?
  3. Troque o seu caderno com um colega que fale a mesma língua que a sua. O que ele escreveu é correcto na sua língua? Ele usou a ortografia que se estabeleceu nessa língua?
  4. Juntem as vossas frases e, a partir delas, elaborem um pequeno texto. O tema é à vossa escolha. Não se esqueçam de usar a ortografia correcta da vossa língua.

O ponto número 1 do exercício que acabou de fazer mostrou-lhe o poder que o verbo tem de aglutinar muita informação. Se estiver recordado, o verbo é a palavra que mais varia no contexto das palavras que existem numa determinada língua. Como se referiu, nas línguas moçambicanas, quando conjugado, o verbo apresenta vários afixos flexionais, marcando o sujeito, a negação, o tempo, o aspecto, entre outros.

Nas aulas subsequentes, vai, com mais precisão, desenvolver estes aspectos na sua componente prática. Porém, para um breve esclarecimento, vejam-se os exemplos a seguir:

Exemplos 10:

Xichangana: Nimuvutisile svaku aya kwini. “Perguntei-lhe para onde ia.”
Angahihembelanga Mujondzisi! “O professor não nos mentiu!”

Echuwabo:

Ddawuvaya nama

“Entreguei-te a carne”

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Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual