Módulo 4 | O Verbo e a Frase nas Línguas Moçambicanas

Aula 3 | A Frase nas Línguas Moçambicanas

A frase nas línguas moçambicanas

Depois do estudo do comportamento do nome e do verbo nas línguas moçambicanas, vai agora aprender como usar estes elementos para produzir frases na sua língua moçambicana. Veja, primeiro, algumas definições sobre a mesma:

Frase é uma palavra ou conjunto de palavras dispostas de uma dada maneira, de acordo com certas regras, para exprimir um determinado sentido. Pode-se definir ainda como um enunciado de sentido completo, unidade mínima de comunicação, que pode ser constituída por uma única oração (frase simples), por mais do que uma oração (frase complexa), ou apenas por um verbo (frase elíptica), onde os restantes constituintes são subentendidos.

A partir destas breves definições do que é frase, podemos assumir, então, que o que dizemos, para que seja constituído como uma frase, tem que estar de acordo com as regras estabelecidas numa determinada língua. Mesmo que respeite as regras, se dentro da língua não se constituir um significado lógico e completo, pode não ser frase. Significa isso que aquilo que, por exemplo, é considerado frase na língua portuguesa, pode não ser em Kiswahili ou em Cindau. Para certificar na prática como isso se materializa, resolva o pequeno exercício a seguir.


Actividade 6

Estudo independente

Preste atenção ao quadro abaixo. No seu caderno, traduza as frases dadas para a sua língua moçambicana.

Em Português Na sua língua moçambicana
A Luísa ofereceu um cão ao João.
O Manuel comeu o bolo.
O sol está vermelho.
Há um silêncio absoluto.
A Rafaela é boa pessoa.
Estão aqui cem galinhas.
Eu vou passear .

Tabela 11: Exercício de aplicação sobre a frase nas línguas moçambicanas.


  1. O que achou da tradução que fez?
  2. Que particularidades encontrou na tradução das frases?
  3. Escreva mais três frases em português e traduza para a sua língua moçambicana de trabalho.

Frase verbal e frase não verbal

O ponto de partida para a nossa discussão é a frase simples. Tal como notou durante a tradução, nem sempre o núcleo da frase é uma forma verbal. O núcleo pode ser uma cópula, um nome ou um ideofone. Portanto, nas línguas moçambicanas, a frase simples pode ser verbal ou não verbal, dependendo da natureza do núcleo.


Frase verbal

Diz-se frase verbal a toda a frase cujo núcleo é um verbo ou uma forma verbal.

Exemplos 11:

Xichangana: Juze anyikile n’wana pawa. “O José deu pão à criança.”

Cicopi:

Mami atsula nthumoni

“A mamã vai ao serviço.”

Frase não verbal

A frase não verbal é aquela cujo núcleo é uma categoria lexical diferente do verbo. Esse núcleo pode ser um nome (frase nominal), uma cópula (frase copulativa) ou um ideofone (frase ideofónica), como se mostra no esquema e nos exemplos mais abaixo.

Exemplos 12:

a) Nominal

Ciyaawu: Nguku diciila asi. “Estão aqui cem galinhas.”

Xirhonga:

Hi leyi homo.

“Está aqui o boi.”

b) Copulativa

Cinyaja: N’nyamata uyu ndi munthu. “Este rapaz é pessoa.”

Xichangana:

Muhlophe i munhu munene.

“O Muhlophe é boa pessoa.”

c) Ideofónica

Xichangana: Maphisani ategeeee! “O Maphisani está refastelado.”

Citshwa:

Cibuku leci cikhwa ca mina.

“Este espelho parece meu.”

Polaridade da frase simples nas línguas moçambicanas

Para além da classificação quanto à natureza do núcleo, a frase pode ser classificada quanto à polaridade, isto é, frase afirmativa e frase negativa. Geralmente, afirmativa é aquela produzida naturalmente, ao passo que a negativa sempre é marcada. Nas línguas moçambicanas, a marcação da frase varia de língua para língua. Pela vastidão das estratégias de marcação da frase negativa nas línguas moçambicanas, aqui mostraremos apenas alguns exemplos.

Exemplos 13:

Cicopi: Afirmativa: Mami abhikite nyama. “A mamã cozinhou carne”
Negativa: Mami nkhabhika nyama. “A mamã não cozinhou carne”
Cinyungwe: Afirmativa: Ife tatsuka manja. “Nós lavamos as mãos”
Negativa: Ife tiribe kutsuka manja. “Nós não lavamos as mãos”
Ciyaawo: Afirmativa: Lisu uwe tucapile m’piika. “Ontem nós lavámos a panela”
Negativa: Lisu nganitucapa m’piika. “Ontem nós não lavámos a panela”

Sistema de Concordância

Tal como vimos no primeiro capítuto, uma das características das línguas moçambicanas é o seu sistema de concordância. Os nomes regem a concordância de todos os elementos da frase com eles relacionados (verbos, qualificadores, quantificadores, possessivos e demonstrativos). Esta concordância é feita através de marcas de concordância. Conforme já referenciado, nas línguas moçambicanas os nomes estão organizados em classes, de acordo com os seus prefixos nominais e as marcas de concordância.


Actividade 7

Trabalho de grupo

Preste atenção ao quadro abaixo. No seu grupo linguístico, traduza as frases dadas para a sua língua moçambicana.

Em Português Na sua língua moçambicana
O meu gato pariu.
Os meus gatos pariram.
O Manuel e a Joana estão doentes.
O cabrito e o coelho comem capim.

Tabela 12: Exercício de aplicação em grupo sobre o sistema de concordância.


  1. O que aprenderam realizando este exercício?
  2. A que conclusões chegaram sobre a concordância verbal?
  3. Qual é a vossa proposta para ensinar a concordância verbal com base em técnicas particiaptivas?

Durante a tradução deve ter notado que temos frases que exibem um sujeito nominal simples (aquele que é constituído por apenas um nome) e um sujeito complexo (aquele que é constituído por dois ou mais nomes ligados por uma conjunção ou por um sinal de pontuação).

Se prestou atenção, observou que:

  1. As frases traduzidas mostram que, na sua língua, quando o sujeito nominal é simples, existe um tipo de marca de concordância que se altera quando o mesmo sujeito passa a ser complexo ou quando passa para o plural.
  2. A concordância nas línguas moçambicanas não é um assunto simples. Por exemplo, se os elementos que constituem o sujeito pertencerem a classes nominais diferentes, a concordância tomará padrões diferentes para cada língua particular.
  3. Existem marcas de concordância próprias e estabelecidas na língua conforme a natureza dos seres que corporizam o sintagma nominal na posição de sujeito.

Resumo

Nas línguas moçambicanas, a frase pode ser verbal ou não verbal. A frase verbal é aquela em que o núcleo é uma forma verbal, ao passo que a não verbal tem como núcleo uma categoria lexical diferente do verbo, que pode ser nome, ideofone ou cópula. A concordância verbal é regida pela natureza do nome ou nomes que ocupam a posição de sujeito da frase. As estratégias de marcação da polaridade (afirmativa ou negativa) da frase variam de língua para língua. Umas usam a forma sintética, em que a marca da negação aparece acoplado ao verbo, e outras usam a forma analítica, através de um segmento lexical.


Exercícios de auto-avaliação
  1. Escreva três frases verbais e não-verbais na sua língua moçambicana de trabalho e explique por que são verbais e não-verbais.
  2. Explique, recorrendo a exemplos, a concordância gramatical na sua língua moçambicana de trabalho.
  3. Será que, na sua língua moçambicana, a concordância verbal com nomes de classes diferentes é pacífica? Justifique a sua resposta, apresentando alguns exemplos.
  4. Qual seria a melhor forma para ensinar este conteúdo para os alunos do Ensino Primário?
  5. Que técnica(s) participativa (s) poderia (m) tornar o ensino deste conteúdo mais fácil e mais atractivo para crianças?

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Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual