Módulo 5 | A Leitura e sua Prática nas Línguas Moçambicanas

Aula 2 | Actividades Práticas para o Desenvolvimento da Leitura em Línguas Moçambicanas

Actividades práticas para o desenvolvimento da leitura em línguas moçambicanas

Como ler melhor?

Em primeiro lugar, deve-se dizer que a leitura não é a oralização da escrita, mas um processo próprio que pressupõe um amadurecimento de habilidades linguísticas em partes diferentes das que ocorrem na produção da fala espontânea. Uma leitura em voz alta, além de levar em conta o que se deve fazer para dizer algo em termos de produção sonora da fala, exige ainda que o leitor acompanhe um raciocínio sobre o pensamento exterior, expresso por outra pessoa, e que ele lê como se fosse o autor.

Uma pessoa que lê necessita de passar pelas etapas normais de produção de sons da fala, ou seja, mudar a respiração, acertar o ritmo, o aceno e a entoação, através da montagem das sílabas, grupos tonais, gerar uma corrente de ar, articular os órgãos do aparelho fonador a nível da laringe, da cavidade bucal, controlar a posição do véu palatino e a configuração dos lábios.

A prática da leitura é uma actividade que deve ser realizada, na sala de aula e na biblioteca, fazendo uso de livros didácticos e literários, revistas, jornais, entre outros, a fim de transformar em qualidade a relação textual com o mundo leitor. O incentivo à leitura deve partir do formando (futuro professor), dos pais e da sociedade, pois assim os alunos passarão a buscar leituras individualizadas.

A leitura e a escrita de crianças e adultos com deficiência ou dificuldades de leitura requerem uma atenção especial do professor. Caso o professor identifique uma criança surda, por exemplo, na sala de aula, deve solicitar auxílio pedagógico para apoiar essa criança a aprender ler na língua de sinais e compreender textos em línguas moçambicanas e portuguesa.

Apresentamos a seguir um conjunto de metodologias e estratégias que podem ajudar no treino da leitura na sua língua moçambicana, nomeadamente o teatro do leitor, a leitura para gravação, a leitura para o desenvolvimento da fluência, a prática da leitura silenciosa, a roda de leitura, a dramatização, o jornal de turma e os clubes de leitura.


Teatro do leitor

O teatro do leitor é uma metodologia interactiva que se baseia no drama, permitindo que os participantes pratiquem a leitura. É usado frequentemente para representar roteiros, promovendo a fluência nos leitores. É uma metodologia muito forte que pode ser usada na exploração de valores e perspectivas pessoais. Esta metodologia é considerada altamente envolvente e importante no desenvolvimento e aperfeiçoamento de habilidades de leitura.

Para a prática do teatro do leitor, realizem a actividade que a seguir se apresenta:


CIGARRA E A FORMIGA

Narrador(a): Era uma vez uma Cigarra que vivia saltitando e cantando pelo bosque, sem se preocupar com o futuro. Esbarrando numa Formiguinha, que carregava uma folha pesada, perguntou:

Cigarra: — Ei, Formiguinha, para quê todo esse trabalho? O verão é para a gente aproveitar! O verão é para a gente se divertir!

Formiguinha: — Não, não, não! Nós, Formigas, não temos tempo para diversão. É preciso trabalhar agora para guardar comida para o inverno.

Narrador(a): Durante o verão, a Cigarra continuou se divertindo e passeando por todo o bosque. Quando tinha fome, era só pegar numa folha e comer. Um belo dia, passou de novo perto da Formiguinha carregando outra pesada folha. A Cigarra então aconselhou:

Cigarra: — Deixa esse trabalho para as outras! Vamo-nos divertir. Vamos, Formiguinha, vamos cantar! Vamos dançar!

Narrador(a): A Formiguinha gostou da sugestão. Ela resolveu ver a vida que a Cigarra levava e ficou encantada. Resolveu viver também como sua amiga. Mas, no dia seguinte, apareceu a rainha do formigueiro e, ao vê-la a divertir-se, olhou feio para ela e ordenou que voltasse ao trabalho. Tinha terminado a vidinha boa.

A rainha das Formigas falou então para a Cigarra:

Rainha das formigas: — Se não mudar de vida, no inverno você há de se arrepender, Cigarra! Vai passar fome e frio.

Narrador(a): A Cigarra nem ligou, fez uma reverência para rainha e comentou:

Cigarra: — Hum!! O inverno ainda está longe, querida!

Narrador(a): Para a Cigarra, o que importava era aproveitar a vida, e aproveitar o hoje, sem pensar no amanhã. Para que construir um abrigo? Para que armazenar alimento? Pura perda de tempo.

Certo dia, o inverno chegou, e a Cigarra começou a tiritar de frio. Sentia seu corpo gelado e não tinha o que comer. Desesperada, foi bater à porta da casa da Formiga. Abrindo a porta, a Formiga viu na sua frente a Cigarra quase morta de frio. Puxou-a para dentro, agasalhou-a e deu-lhe uma sopa bem quente e deliciosa.

Naquela hora, apareceu a rainha das Formigas que disse à Cigarra:

Rainha das formigas: — No mundo das Formigas, todos trabalham e se você quiser ficar connosco, cumpra o seu dever: toque e cante para nós.

Narrador(a): Para a Cigarra e para as Formigas, aquele foi o inverno mais feliz das suas vidas.

Adaptado da fábula de La fontaine


Actividade 1

Trabalho em grupo

Durante a apresentação do teatro do leitor, os restantes membros da turma tomam notas para potenciais questionamentos, acréscimose observações.


Dramatização

A dramatização é a teatralização de uma situação real ou inspirada na realidade e que pode ser explorada pedagogicamente. Recorre-se à dramatização para animar algumas aulas e concretizar alguns conteúdos. É um exercício que permite dar vida às personagens de uma história, de situação de diálogo, ou cenas do dia-a-dia. Constitui, também um bom exercício para o desenvolvimento da oralidade, pois permite explorar tanto situações da vida real, assim como situações imaginárias ou lidas num texto.


Actividade 2

Trabalho em grupo
  1. Formem grupos linguísticos de 10 a 12 formandos de ambos os sexos;
  2. Adaptem o texto “Quem sou eu?” do Módulo I e encenem uma dramatização;
  3. Devem recriar o texto de modo a que os 10 ou 12 formandos possam representar;
  4. Distribuam as personagens pelos formandos do grupo;
  5. Em caso de grupos com menor número de formandos(as), alguns podem desempenhar dois papeis;
  6. Ensaiem a dramatização antes de apresentarem à turma;
  7. Apresentem à turma.

Nesta actividade, devem ser criativos, pois terão muitas personagens.


Leitura para gravação

A leitura para gravação é também uma estratégia importante para desenvolver a habilidade de leitura. De um modo geral, esta estratégia é mais adequada para a leitura de contos para a gravação em CD ou outra componente áudio. É uma metodologia que requer muito ensaio, desde a adequação do texto ao grupo alvo (ouvintes), a atenção à colocação da voz, até às correcções constantes e à incorporação de enfeites sonoros (por exemplo, uma música de fundo ou sons de enfeite).


Actividade 3

Trabalho em grupo
  1. Dois a dois, elaborem um texto publicitário sobre culturas e saberes locais, na vossa língua moçambicana;
  2. O texto deve ser preparado com o intuito de ser gravado;
  3. Ensaiem a leitura até sentirem que já está pronta para a gravação;
  4. Usando um gravador ou mesmo um celular, gravem a leitura do vosso texto;
  5. Podem repetir a gravação, tantas vezes quantas forem possíveis, até ela sair muito bem;
  6. presentem o texto gravado à turma para um pequeno debate sobre a qualidade da leitura na gravação.

Leitura para o desenvolvimento da fluência

A fluência de leitura advém do desenvolvimento das representações fonológicas das palavras e da capacidade em processá-las rapidamente. É a ponte que liga a leitura à compreensão dos textos, sendo avaliada por três indicadores: a velocidade de leitura de palavras por minuto; o número de erros (que deve ser inferior a 5% das palavras lidas) e a prosódia, que se refere à entoação e ao ritmo da leitura.


Actividade 4

Estudo independente
  1. Na sua língua moçambicana de trabalho, elabore um texto sobre identidade e respeito à diferença no contexto de formação de professores;
  2. Troque o seu texto com um colega falante da mesma língua que a sua.
  3. Corrija todos os aspectos sobre a ortografia e a pontuação;
  4. Ensaie a leitura do seu texto, em voz alta. Pode ensaiar com um colega;
  5. Apresente à turma;
  6. Cronometre e indique o tempo de duração da leitura.

O propósito deste exercício é garantir fluidez na leitura e não avaliar a capacidade de decorar com facilidade.


Leitura silenciosa

Tal como referimos no início deste módulo, a leitura silenciosa é a que se faz visualmente, sem o uso da voz. Favorece uma relação mais directa leitor-autor e uma captação mais efectiva do significado do texto. Nas actividades práticas de leitura, esta modalidade é utilizada para avaliar a compreensão. A sua avaliação pode ser feita através de um questionário oral ou escrito.


Actividade 5

Trabalho em grupo: Concurso de leitura

Prestem atenção ao texto que se segue.

Tudo na vida tem jeito!

Você é uma pessoa que faz sempre as mesmas coisas? Vai sempre aos mesmos lugares, conversa sempre com as mesmas pessoas, até o seu problema é igual? Conta sempre a mesma história, ri da mesma piada? Há gente que é assim. Será que você não é? Parece uma fotografia, fica eternamente parada naquilo. Por que uma pessoa fica assim igual com tanta coisa curiosa na vida? Às vezes, é porque ela está a aprender a ser segura, a ser organizada. Então, ela passa por um período de monotonia. Fica meio parada, meio engasgada consigo mesma por um período longo.

Que esquisito, pois com tanta coisa acontecendo nesse mundo moderno, tão dinâmico, a pessoa fica sempre igual. Está sempre com o mesmo cabelo. Mas o povo é assim. Tem aquela que troca de cor de cabelo toda semana. Ela também exagera. Toda hora está trocando de cara porque é mais fácil trocar a cor do cabelo do que mudar de atitude.

Mas tudo tem a sua hora. Cada um está exercitando, de algum jeito, o seu modo de criar, de viver. Veja, por exemplo, a questão do destino, que toca a todos nós. Todo mundo quer forçar o destino a realizar o seu sonho, para que dê certo no amor, na carreira.

Acho que a gente pode mesmo fazer o destino e tem uma certa consciência disso. Nem sempre sabe como fazer, mas a gente quer forçar. Faz o possível para as coisas irem de um jeito e não de outro, embora a gente erre, porque não sabe bem como fazer o destino funcionar. E, às vezes, a pessoa tenta tanto que passa a ser autoritária e arrogante:

- Eu quero assim, porque tem que ser assim!

Não aceita que seja diferente. Acho que isso é descontrole. Mas, no fundo, a pessoa está apenas querendo a felicidade. Você já pensou que tudo que você faz, de certo ou de errado, é porque pensa que isso vai levá-lo à felicidade? Aquele que rouba, que mente, que é sincero, tudo que o pessoal faz é pensando que vai trazer a felicidade.

Que força tem a busca da felicidade em nós! A gente quer viver, quer realizar-se. Uns com dinheiro, outros com amor, com a esperança de que aquela pessoa vá fazê-la feliz. Quantos sonhos de felicidade todos nós temos. E quando a gente se decepciona, porque não consegue, então, não quer sonhar mais. Quer brigar, quer chorar. E quanto maior a revolta, mais mostra que o desejo da felicidade é grande, pois se o desejo fosse pequeno, a revolta seria pequena.

E a gente vê que também o revoltado, o agressivo, o amargo quer a felicidade. Sorte daquele que sabe parar para analisar e ficar só olhando tudo, sem emoção.

Vai fundo e, daí é que descobre as coisas. Quando fica só contemplando, se liga na consciência cósmica, começa a entender as coisas.

- Quer dizer, então, que o conhecimento de tudo está dentro de nós?

- Está mesmo. Se a natureza nos põe para viver, tem que pôr também o conhecimento para termos condições de fazer as coisas. É que você é muito emotivo, muito indisciplinado e não pára para ir fundo. Então, as coisas ficam confusas. Feliz daquele que sabe parar e ficar calmo, só olhando a situação, abrindo a mente e o coração na boa vontade para entender: esse vai dominar a vida e vai ser feliz.

Tudo que consegui de bom na vida foi assim. Mas a gente fica doido, desesperado, emocionado e fica repetindo o que já fez. Uai, se já fez e não deu certo, por que repete? Tem que parar, contemplar, ir fundo, acreditar que tem jeito. Tudinho tem jeito. Pare de ficar desesperado que isso não leva a nada. Só dá dor de cabeça!

Tudo tem jeito. Tem sim, tem muito jeito. Tudo é aprendizagem.

Aquele que está aflito está aprendendo a movimentar sua energia de acção. Aquele que está encruado, parado na vida, está aprendendo a usar o breque. Aquele que está trabalhando, está aprendendo a usar as suas faculdades.

Aquele que trabalha com a moleza, com a preguiça, está aprendendo o valor do tempo, a trabalhar sem stresse.

[…]

Você gosta de se queixar da vida porque ela não é do jeito que você queria. Sinto muito dizer, mas está certo. É você que fica achando erro. Toda crueldade, tudo está certinho. É bom você parar de se queixar e tentar entender, se quer mesmo ser feliz. É preciso entender os porquês, mas você não procura, então por que diz que é difícil?

A vida não esconde nada. É você que não quer ver.

Vamos sair desse delírio de enganos e erros, de obstáculos e pessimismo? Vamos viajar juntos e descobrir isso tudo?

Extraído e adaptado do livro “UM DEDINHO DE PROSA” Calunga.

https://www.pensador.com/textos_literarios_prosa/

O texto “Tudo na Vida tem um Jeito” tem 790 palavras, o que significa que um leitor adulto regular pode ler em 5 minutos.


Roda de leitura

A roda de leitura é uma actividade em que se conversa sobre as leituras que vocês realizam fora das aulas. Nesta actividade, abre-se um espaço para que indiquem um livro ou um texto que tenham lido para outros colegas, levando em conta as características da obra e as preferências de leitura dos amigos. Ao ser inserida na vossa rotina, esta actividade pode ajudar a construir uma comunidade de leitores. Pode criar múltiplas oportunidades de exploração de novos livros, escolha de leituras, análise de leituras e recomendação de mais leituras, em suma, fazer mais leituras interessantes, desenvolvendo, ao longo do processo, gostos e preferências por obras, géneros e autores.


Actividade 6

Trabalho de grupo
  1. Formem grupos linguísticos de 6 formandos de ambos os sexos. Cada grupo é uma roda de leitura,
  2. Os grupos devem escolher um texto ou um livro, na sua língua moçambicana, para ler, de acordo com seus critérios pessoais de apreciação,
  3. Uma vez escolhido e lido, os formados devem organizar-se numa roda de leitura, tendo os textos escolhido,
  4. Cada um dos formandos partilha a leitura feita, fazendo comentários apontando critérios de escolha, aspectos interessantes do texto, de modo a que a roda se informe a respeito do texto lido.

Esta actividade é realizada fora da sala de aula.


Resumo

A leitura é uma actividade que envolve muitos processos. Ela subdivide-se em oral e silenciosa. A descodificação, a compreensão e a interpretação são consideradas as três principais etapas da leitura. O teatro do leitor, a dramatização, a leitura para gravação, a leitura para o desenvolvimento da fluência, a prática da leitura silenciosa, a roda de leitura e o Jornal da turma, são algumas sugestões de estratégias para a prática e desenvolvimento da leitura, no geral, e nas línguas moçambicanas, em particular.


Assista à Videoaula

Nota: O conteúdo deste vídeo contém o mesmo conteúdo do texto do Manual