Módulo 1 | A Psicopedagogia na Formação dos Professores

Aula 1.3Como educar com a sensibilidade ao género?

Reflexão Inicial 3

Usando a técnica de “pensar-partilhar-apresentar”, responda às seguintes questões:

  1. Faça um levantamento de formas de tratamento do professor para com os alunos, que não promovem a igualdade entre raparigas e rapazes, que tenha vivido no seu tempo como aluno da escola primária.
  2. Acha que esses procedimentos mudaram nos dias de hoje? Justifique a sua posição na base de evidências.

A partir da reflexão feita no exercício anterior, você pode ter percebido que a escola e, particularmente, os professores, não promovem iguais oportunidades de integração das raparigas em relação aos rapazes. De facto, a forma de organização dos alunos (ex.: a composição equilibrada dos grupos e preferências na atribuição de tarefas escolares na base de género) na sala de aulas, é muito determinante para a participação igual de raparigas e rapazes na aula.

O professor deve ter a consciência de que, desde o nascimento, a pessoa, sofre imposições e estereótipos, principalmente de género. O tratamento diferenciado entre rapazes e raparigas, que começa com as cores dos enxovais, nos brinquedos, nos filmes, nos brincos, etc., tem um efeito poderoso na criança, pois é por meio dele que ela percebe o que deve fazer e como agir para se conformar e encaixar-se no género masculino ou no feminino.

No seio familiar, é comum notar que, enquanto os meninos brincam de carrinho, com jogos de aventura e construção, as meninas são introduzidas aos cuidados da casa, com panelas e utensílios domésticos, rosas e bonecas magras e elegantes.

A desigualdade de género ganha mais força quando, na escola, as crianças são divididas em “fila dos rapazes e fila das raparigas”; quando a caligrafia, a delicadeza e o capricho das meninas são sempre enaltecidos e elogiados, enquanto os rapazes são considerados como os ‘super-heróis’; quando as raparigas são sempre chamadas para organizar e limpar a sala e os rapazes para resolver os cálculos matemáticos. Expressões, tais como, “senta-te como menina”, dirigidas às meninas e “menino não chora”, para os meninos, parecem coisas mínimas, mas acontecem em todo o lugar, a todo o momento.

Outros estereótipos muito comuns no contexto sócio-cultural de Moçambique são: numa sala de aulas com poucas carteiras os rapazes sentam-se nas poucas que existem e as meninas no chão, e não só, em algumas famílias os assentos mais confortáveis são exclusivos para o chefe de família. Ainda, em certos casos os homens são os primeiros a se servirem e há partes do alimento exclusivas para o homem dependendo do seu papel na família. Outrossim, grande parte dos ritos de iniciação e passagem em Moçambique veiculam um ensinamento no qual a figura da mulher é dependente do homem e, não é reservado à mulher direito algum que não sejam os deveres.

A equidade de género ainda é um grande tabú, principalmente nas escolas e na educação das crianças, em geral. Ainda não é assunto fácil a ser debatido.

A seguir são apresentados cinco princípios a serem considerados pelo professor para educar as crianças com sensibilidade ao género, nomeadamente:

a. É preciso educar o adulto antes de educar a criança

O professor não poderá orientar uma aprendizagem autónoma e livre, se ele próprio não for coerente com os procedimentos que promovam aautonomia e a liberdade. As crianças se espelham muito nas atitudes que vêem à sua volta. Elas observam e reproduzem práticas e discursos do adulto.

É preciso parar com a “princesação” das meninas e com a imposição de uma “feminilidade natural”. O discurso de “isso não é coisa de menina”; “senta como menina ”; “menina não fala essas coisas”; “azul é cor de menino”, piora os preconceitos baseados no género. É necessário libertar as meninas dos estereótipos de género, mudando a forma como o professor se dirige a elas.

Os meninos também sofrem com estereótipos de género, tais como: “isso não é brincadeira de menino”; “o homem não chora”; “rosa é cor de menina”; “você tem que ser forte, já é um homem”; “boneca é coisa de menina” e, enfim, essas e outras coisas que se ouvem o tempo todo também afectam a forma como os meninos constrõem a sua identidade.

O professor pode trocar a divisão por género nos casos “meninos desse lado e meninas daquele” por “quem nasceu no mês de janeiro deste lado”, ou “quem tem o nome que começa com a letra B”, daquele lado.

b. Você não precisa de ser “expert” no assunto sexualidade e género

Muitos professores podem não abordar a temática sexualidade e género na sala de aulas por não dominaremo assunto.Ninguém precisa de ser especialista no assunto. O importante é não reprimir os impulsos e a vontade das crianças; o que elas devem ou não fazer e como brincar.

c. Crie um ambiente saudável e amigável

É importante que o professor, como educador, crie um ambiente próprio para a interacção, que valorize as diferenças, sem discriminação e estereótipos. O professor deve estimular o brincar livre e a imaginação, promovendo jogos de estratégia e criatividade.

Lembre-se que não existe brinquedo para menina e para menino - os brinquedos e brincadeiras são para crianças.

d. Confie no poder do livro

Os livros são fonte de variadas histórias para crianças. Os livros têm títulos que desconstrõem núcleos familiares tradicionais, estereótipos de princesas e contos de fada; os que trazem a homossexualidade e as diferentes formas de se relacionar como temática central; os que falam de mulheres e seus grandes feitos na história e muitos outros.

e. Ensine meninas a terem coragem

A sociedade tende a educar as meninas para serem perfeitas em tudo o que fazem, desprezando a sua coragem, a criatividade e a sua capacidade de lidar com falhas e imperfeições, o que as limita em várias actividades em que se poderiam destacar.

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Resumo do Tema

Ensinar com a sensibilidade ao género pressupõe encarar todas as raparigas e todos os rapazes com o respeito às suas diferenças, o que é indispensável para o desenvolvimento da sua personalidade e do seu potencial.

O professor deve ser o exemplo de um comportamento que promove autonomia e liberdade, pois as crianças se espelham nas atitudes que vêem à sua volta. Para tal, o professor não precisa de ser especialista de género, mas, sim, estimular o brincar livre e a imaginação, promovendo jogos de estratégias e criatividade e, ainda, experiências de vida, em que os rapazes e as raparigas se sentem valorizados, independentemente do género.

Reflexão Final 3

  1. Apresente três propostas de formas de organização dos alunos na sala de aulas, sensíveis à equidade de género.
  2. Na escola, por que na maioria das vezes se atribui às meninas a responsabilidade de serem chefes de higiene? na conservação do Livro de Turma? nas actividades ligadas ao desporto?
  3. Que metodologias o professor pode adoptar para ampliar a promoção da equidade entre o género na sua sala de aulas?
  4. Discuta a sua posição com os seus colegas da turma, na base da técnica “Pensar- Partilhar - Apresentar”.

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