Módulo 6 | Avaliação do Processo de Aprendizagem

Aula 6.6Auto e heteroavaliação no Processo de Ensino-Aprendizagem

Reflexão Inicial 28

  1. No processo de ensino-aprendizagem é comum o professor avaliar os alunos. Mas a questão que se coloca é: “Será que o aluno pode e deve auto-avaliar-se? Porquê?
  2. Use a técnica “Tomar uma Posição” para discutir a questão acima com os colegas da turma.

Com a discussão tida com os colegas da turma, pode ter visto que, entre os variados critérios com os quais se podem classificar os tipos de avaliação, um deles tem sido o do sujeito que pratica a avaliação. Deste modo, tem-se a heteroavaliação e a autoavaliação.

Designa-se “heteroavaliação” quando um sujeito avalia outro ou outros. Esta parece ser a situação comumente utilizada na escola, onde vemos professores a avaliar alunos para atribuir uma classificação, seja ela quantitativa (através de notas) ou qualitativa (através de menções honrosas tais como “excelente”, “muito bom”…etc).

Na prática escolar, a heteroavaliação faz com que o professor se assuma como o “distribuidor” de notas, recaindo sua avaliação sobre os alunos. O excesso desta prática, mesmo com o cumprimento adequado de boas práticas de avaliação diagnóstica, formativa e sumativa, leva a que o aluno seja-lhe dado menos consideração ao papel que têm a autoavaliação para a regulação da sua aprendizagem, contrastando assim com uma visão pedagógica em que este aluno deve ser-lhe dado maior protagonismo na sua aprendizagem, à luz do modelo de ensino centrado do aluno, participativo e construtivista.

Eis porque interessa incoporar na prática escolar a autoavaliação, a qual compreende a circunstância na qual um sujeito se avalia a si mesmo; quer dizer, é a “avaliação por opinião própria de quem realiza/realizou/participa/participou de uma actividade”.

No processo de ensino-aprendizagem a autoavaliação é “a actividade de autocontrole reflectido das acções e comportamentos do sujeito que aprende” (Haydt, 1997, p. 95), é um processo regulador da aprendizagem e permite ao aluno, numa determinada situação de aprendizagem, desenvolver estratégias de análise e de interpretação das suas produções e da sua autonomia, potenciando a tomada de consciência do seu percurso de aprendizagem.

Vieira (2013), citando diferentes autores, diz que através deste “olhar crítico consciente sobre o que se faz, enquanto se faz e/ou depois de se ter feito” (Simão, 2005, p. 273), o aluno controla e gere os seus próprios processos cognitivos, responsabiliza-se pelo seu desempenho escolar, confia nas suas próprias capacidades (Leite & Fernandes, 2002) e, consequentemente, ganha motivação (Simão, 2005).

Deste modo, na autoavaliação estamos perante dois processos que se interligam, mas que são distintos:

  1. Autocontrolo: é uma componente natural da acção e, por essa razão, é implícita e faz parte das acções complexas que o ser humano desenvolve.
  2. Metacognição: é um processo consciente e reflectido.

Assim, a capacidade crítica que o aluno apresenta relativamente ao seu processo de aprendizagem permite-lhe planificar as tarefas a desenvolver, identificar e compreender as etapas que as constituem, analisar e compreender os erros cometidos e os sucessos alcançados, comparar a acção desenvolvida com o plano delineado, confrontar os resultados obtidos com os esperados e as operações realizadas com as concepções que delas tinha à partida, diz Viera (ibid) citando Barbosa & Alaiz (1994).

A autoavaliação é, desta maneira, um processo de metacognição, pois:

  1. Como estratégia cognitiva refere-se às reflexões pessoais do aluno sobre os motivos que o dificultam na concretização da tarefa e sobre as estratégias para a resolução da mesma.
  2. Como estratégia metacognitiva refere-se às reflexões pessoais relativas à forma como planificar e organizar a sua acção antes e durante a execução da tarefa proposta e às mudanças inerentes à consecução dos objectivos.

A essa capacidade que o aluno revela para avaliar a execução da tarefa, antecipando as operações a realizar para que determinada aprendizagem aconteça e para a reformular, identificando os erros de percurso cometidos e a procura de soluções alternativas, chamamos de autoavaliação regulada (Ribeiro, 2003).

É importante referir, no entanto, que o facto de estarmos perante um processo interno àquele que aprende (Santos, 2002) não invalida que o papel do professor se insurja como fundamental para a construção de um conjunto de ambientes de aprendizagem diversificados e facilitadores, com mecanismos e estratégias diferenciadas, condições imprescindíveis ao desenvolvimento da autonomia do aluno e da sua capacidade de autoavaliação.

Com efeito, hoje, o professor pode fomentar a autoavaliação a partir da contribuição dos manuais escolares que apresentam algumas propostas de autoavaliação para o trabalho realizado na aula e no trabalho de grupo e a dos professores que, individualmente ou colaborativamente, constrõem fichas autocorrectivas que orientam o aluno para a melhoria da sua aprendizagem e outras que lhe permitem fazer o balanço do trabalho por si desenvolvido na aula, no fim do período e no fim do ano lectivo e propor um nível para o seu desempenho.

Consideramos, assim, que é necessário promover uma forma mais profunda de autoavaliação que passa por reconhecer o aluno como actor principal do seu processo. Pôr em prática este dispositivo avaliativo pressupõe que o professor construa, com os seus alunos, uma relação pedagógica assente no diálogo e na negociação de todas as etapas do trabalho a desenvolver a:

Neste sentido, à medida que vai realizando a tarefa, o aluno vai autocontrolando o processo de realização da mesma, em função dos critérios estabelecidos, mantendo a distância relativamente à realização da tarefa de aprendizagem e fazendo a sua análise crítica.

Só assim este reúne condições para reformular o percurso por si delineado, criando alternativas, ao tomar consciência de que não está a cumprir os critérios de avaliação, ou de que incorreu nalgum erro que obstaculize a concretização da tarefa.

Esta relação pedagógica requer um ambiente de aprendizagem que potencie uma constante interação social, como partilha, cooperação e confronto da informação para facilitar a representação mental das tarefas e assim ter repercussão no controlo das actividades e nas actividades metacognitivas (Roux, 2003).

Um dispositivo avaliativo desta natureza carece da implementação de práticas que possibilitem ao aluno, aquando da realização das tarefas propostas pelo professor, tomar consciência dos seus pontos fortes e fracos, avaliar a qualidade dos resultados alcançados, rever a produção conseguida e perceber como pode ultrapassar as suas dificuldades.

Não se trata, por isso, apenas de autoavaliar os resultados conseguidos, ou seja, de uma autoavaliação das aprendizagens, mas trata-se sobretudo de autoavaliar todo um processo com diversas fases, isto é, de autoavaliar para aprender. Estes momentos de autoavaliação vão permitir-lhe ver os progressos conseguidos, os objectivos a atingir e os esforços a envidar para ter êxito (Silva, 2004), ou seja, para aprender. Só assim podemos falar em aprendizagem autorregulada.

É neste cenário que a autoavaliação, enquanto processo regulador da aprendizagem, pode concorrer para uma cultura de escola e para uma aprendizagem efectiva, na medida em que é na interacção que o professor, enquanto ajudante de compreender o Mundo, mantém com os alunos, dotando-os de estratégias cognitivas e metacognitivas e, dessa maneira, contribuir para o aumento dos seus potenciais de aprendizagem.

Pelo que se disse anteriormente, é necessário que o sujeito que se auto-avalia:

A auto-avaliação, por si, seria o meio fundamental para que cada um assuma a responsabilidade sobre si mesmo, daquilo que é capaz, como também sobre aquilo que não tem o domínio; sobre a sua acção e suas consequências; sobre suas relações; sobre os resultados dos seus actos.

Por essa via, valerá então compreender que, no processo de ensino-aprendizagem, a auto-avaliação deve ser feita tanto por cada um dos alunos, bem como pelo professor, enquanto sujeitos de acção no contexto das respectivas actividades e dos resultados que alcançam. Deste modo, a autoavaliação pode ser entendida como o processo em que o professor e o aluno apreciam os seus aspectos fortes, reconhecem as suas fraquezas e orientam as suas tarefas com maior eficácia durante o processo de ensino-aprendizagem.

Para a auto-avaliação, os sujeitos (professor e aluno) podem recorrrer ao uso dos seguintes métodos de auto-avaliação e de factores de desempenho a considerar na auto-avaliação.

Quadro 26: Métodos de auto-avaliação e factores de desempenho

Métodos

Caracterização

Métodos de auto-avaliação

 Método centrado na personalidade

Traduz-se num tipo de escalas ancoradas em traços da personalidade. E o sujeito faz a notação da sua pontuação, a partir dos itens da escala em causa.

 Método centrado nos comportamentos

Baseia-se em comportamentos e não em traços. Como exemplo destes comportamentos temos: i) incidentes críticos; ii) escolha forçada e/ou deliberada de um comportamento para auto-avaliação; iii) padrão misto entre os dois casos anteriores; iv) observação comportamental a partir de listas de verificação.

 Método centrado na comparação com os outros

Traduz-se na comparação com outros com a mesma função/actividade. Como exemplos, pode se ter a ordenação simples (“minha posição/lugar em relação aos outros tendo em conta o desempenho realizado numa acção) e comparação por pares.

 Método centrado nos resultados

 Traduz-se na comparação dos resultados obtidos com os padrões de desempenho estabelecidos ou com os objectivos definidos para um determinado período de tempo. Neste método incluem-se os padrões de desempenho e a gestão por objectivos.

Factores de desempenho

 Assiduidade

Avalia a frequência diária ao trabalho (frequência/regularidade, pontualidade, permanência e dedicação).

 Disciplina

Avalia o comportamento do sujeito quanto aos aspectos de observância aos regulamentos e orientação da chefia (comportamento equilibrado, discreto e de acordo com a ética).

Capacidade de iniciativa

Avalia a capacidade do sujeito em tomar providências por conta própria dentro da sua competência (independência e autonomia na actuação, dentro dos limites estabelecidos).

Produtividade

Avalia o rendimento compatível com as condições de trabalho produzido pelo sujeito e o atendimento aos prazos estabelecidos (rendimento compatível com as condições de trabalho, disponibilidade do material, equipamento, prazos, etc e a qualidade do serviço na execução das suas actividades).

Responsabilidade

Avalia como o sujeito assume as tarefas que lhe são propostas, dentro dos prazos e condições estabelecidas: a conduta moral e ética.

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Resumo do Tema

A avaliação, em termos de tipos, pode ser diagnóstica, formativa e sumativa. Mas também existe a possibilidade de classificar a avaliação a partir do sujeito que a pratica, fazendo com que tenhamos a heteroavaliação e a autoavaliação.

Se bem que, no geral, a avaliação é e deve ser mais usada como mecanismo regulador do trabalho didáctico metodológico do professor e do aluno, a modalidade de auto-avaliação está intrinsicamente ligada a esta preocupação de regulação da aprendizagem do aluno. Com ela o aluno pode explorar as suas fraquezas/limitações, interrogando-se sobre possibilidades de incrementar a sua aprendizagem. Ele dá-se conta, assim, de forma permanente sobre os resultados que está tendo na aprendizagem, mas também da motivação requerida para essa aprendizagem.

Devido a esta potencialidade da auto-avaliação, vale recomendar aos professores para, através de actividades de auto-avaliação, encorajarem os alunos nesta prática, devendo estes se apropriarem dos métodos de auto-avaliação e dos factores de desempenho a controlar.

Reflexão Final 29

  1. Use a técnica “Caminhar-Falar-Escrever” para sistematizar e discutir com os colegas da turma sobre:
    1. Seus pontos mais fortes na aprendizagem em cada uma das discplinas/módulos;
    2. Seus pontos/aspectos a melhorar na aprendizagem destas mesmas disciplinas/módulos.

Exercício

  1. Explique a importância da avaliação no processo de ensino-aprendizagem.
  2. Tendo em conta as aprendizagens ao longo deste capítulo, elabore um quadro comparativo, apontando os aspectos positivos da avaliação e os que acha que ainda devem ser melhorados na escola onde realiza(ou) práticas pedagógicas.
  3. Faça uma pesquisa bibliográfica sobre “os aspectos éticos da avaliação do processo de ensino-aprendizagem”.
  4. Além da avaliação do aluno, que outras avaliações poderiam ajudar na melhoria do processo de ensino-aprendizagem na escola primária?
  5. Como a auto-avaliação do professor pode melhorar a aprendizagem dos alunos?
  6. Como as escolas primárias avaliam suas práticas de ensino-aprendizagem? Quais as sugestões para melhorar esse processo de avaliação da instituição escolar? Quem deveria participar da avaliação participativa na escola?

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